Carta de Santo Inácio aos Efésios 

Éfeso, cidade importantíssima daquela época, onde o Apóstolo Paulo se demorou mais de três anos. A tradição diz que o Apóstolo João e Maria Santíssima residiram nesta cidade, daí Inácio citar, com tanto amor e devoção, o nome santo de Maria, em sua carta aos efésios. 

Inácio, também chamado Teóforo, àquela que é bendita em grandeza na plenitude de Deus Pai, predestinada antes dos séculos a existir em todo o tempo, unida para uma glória imperecível e imutável, e eleita na Paixão verdadeira, pela vontade do Pai e de Jesus Cristo nosso Deus à Igreja digna de bem-aventurança, que vive em Éfeso da Ásia, todos os bens em Jesus Cristo e os cumprimentos numa alegria impoluta. 

*** Éfeso, cidade importantíssima daquela época, onde o Apóstolo Paulo se demorou mais de três anos. A tradição diz que o Apóstolo João e Maria Santíssima residiram nesta cidade, daí Inácio citar, com tanto amor e devoção, o nome santo de Maria, em sua carta aos efésios. *** 

1- Tomei conhecimento em Deus de vosso nome tão apreciado, que granjeastes por uma apresentação correta, baseada na fé e caridade em Jesus Cristo nosso Salvador. Sendo imitadores de Deus reanimados no sangue de Deus, levastes a termo a obra que vos é congênita. Assim ouvindo que eu vinha da Síria, preso pelo Nome e pela esperança que nos são comuns, confiando chegar até Roma para combater as feras, graças à vossa oração, a fim de ter a felicidade de tornar-me discípulo, vós vos apressastes em ver-me. Recebi, pois, toda a vossa grande comunidade em nome de Deus na pessoa de Onésimo, dotado de indizível caridade e vosso bispo segundo a carne. Peço-vos que o ameis em Jesus Cristo e que a Ele todos vos assemelheis. Bendito Aquele que vos fez a graça, já que vos mostrastes dignos de possuirdes tal bispo. 

*** Quando Inácio diz "O Nome", se refere a Jesus Cristo, O Nome por excelência e O Bispo Verdadeiro junto de Deus Pai. Combater as feras; os cães, leões e as feras inimigas da Igreja de Cristo; os romanos e os pagãos. Onésimo, bispo segundo a carne, pois Jesus Cristo é O Bispo perante Deus. *** 

2 - Quanto a Burrus, meu companheiro de serviço e vosso diácono bendito em todas as coisas segundo o coração de Deus, pediria que continue a meu lado para honra vossa e de vosso bispo. Mas também Crocos, digno de Deus e de vós, a quem acolhi como prova de vosso amor, confortou-me ele de toda a sorte, como também o Pai de Jesus Cristo lhe há de dar conforto junto com Onésimo, Burrus, Euplos e Fronton, pois em suas pessoas vi a todos vós na caridade. Gostaria de merecer a graça de alegrar-me convosco em tudo. Bem, por isso é que convém glorificar de toda sorte a Jesus Cristo que vos tem glorificado para que, reunidos em uma só submissão, sujeitos ao bispo e ao presbitério, vos santifiqueis em todas as coisas. 

*** Presbíteros, hoje chamados de padres. *** 

3 - Não vos dou ordens como se fora alguém. Mesmo que carregue os grilhões pelo Nome, ainda não cheguei à perfeição em Jesus Cristo. Pois agora é que começo a instruir-me e vos falo como a meus condiscípulos. Eu de fato deveria ser ungido por vós com fé, exortações, paciência, grandeza d’alma. Mas, desde que a caridade não me permite calar-me sobre vós, tomei a dianteira de exortar-vos a correr de acordo com o pensamento de Deus. Pois Jesus Cristo, nossa vida inseparável, é o pensamento do Pai, como por sua vez os bispos, estabelecidos até os confins da terra, estão no pensamento de Jesus Cristo. 

4 - Segue daí, que vos convém avançar junto, de acordo com o pensamento do bispo, como aliás fazeis. Pois vosso presbitério digno de tão boa reputação, digno que é de Deus, sintoniza com o bispo como cordas com a cítara. Por isso, no acorde de vossos sentimentos e em vossa caridade harmoniosa, Jesus Cristo é que é cantado. Mas também, um por um, chegais a formar um coro, para cantardes juntos em harmonia; acertando o tom de Deus na unidade, cantais em uníssono por Jesus ao Pai, a fim de que vos escute e reconheça pelas vossas boas obras, que sois membros de seu Filho. Vale assim a pena viver em unidade intangível, para que a toda hora também participeis de Deus. 

5 - Pois, se em tão curto lapso de tempo tive tal intimidade com vosso bispo, não em sentido humano mas espiritual, quanto mais devo felicitar-vos por estardes tão profundamente ligados a ele como a Igreja a Jesus Cristo e como Jesus Cristo ao Pai, para que todas as coisas estejam em sintonia na unidade. Não se iluda ninguém. Se não se encontrar no interior do recinto do altar, ver-se-á privado do pão de Deus. Vede, se a oração de um e dois possui tal força, quanto mais então a do bispo e de toda a Igreja! Aquele que não vem à reunião comum já se revela como orgulhoso e se julgou a si próprio, pois está escrito: «Deus se opõe aos orgulhosos». Por conseguinte, cuidemo-nos de não nos opormos ao bispo, para estarmos submissos a Deus. 

*** O Pão de Deus é Jesus Cristo, como Ele mesmo disse: «Eu sou o Pão vivo descido dos Céus»; «Minha carne é verdadeira comida...», quem não se encontrar no recinto do altar, as celebrações eucarísticas, estará se excluindo da Igreja de Cristo. Inácio frisa a obrigação de obedecer ao bispo = Igreja de Cristo. *** 

6 - E quanto mais alguém percebe que o bispo se cala, mais o respeite. Pois aquele a quem o dono da casa delega para a administração e preciso que o recebamos como receberíamos ao que o enviou. Torna-se pois evidente que se deve olhar para o bispo, como para o próprio Senhor. De fato, porém, o mesmo Onésimo exalta vossa boa disciplina em Deus, dizendo que viveis todos conforme a verdade e que entre vós não há heresia que chegue a tomar pé. Antes pelo contrário, a ninguém mais prestais ouvido, a não ser a Jesus Cristo, que fala na verdade. 

*** O bispo representa Jesus Cristo, que está visivelmente, a frente de sua Igreja *** 

7- Há os que costumam, por um ardil pernicioso, servir-se por toda parte do Nome, mas praticam coisas indignas de Deus. A estes evitareis como a animais selvagens. São realmente cães raivosos, que mordem traiçoeiramente. É preciso precaver-vos de suas mordeduras, difíceis de curar. Um é o médico, em carne e espírito, gerado e não gerado, aparecendo na carne como Deus, na morte vida verdadeira, tanto de Maria como de Deus, primeiro capaz de sofrer, depois impassível, Jesus Cristo Senhor Nosso. 

8 - Que ninguém vos iluda pois. Nem vos deixeis aliás iludir, sendo todo inteiros de Deus. Pois, se nenhuma intriga se armou entre vós, que vos possa atormentar, é sinal de que viveis segundo Deus. Sou vossa vítima e me ofereço em sacrifício por vossa Igreja, efésios, que será celebrada pelos séculos. Os carnais não podem praticar obras espirituais, nem os espirituais obras carnais, como nem a fé pratica as obras da infidelidade nem a infidelidade as da fé. Mas também aquilo que praticais, segundo a carne, é espiritual, pois fazeis tudo em Jesus Cristo. 

9 - Soube de pessoas que por lá passaram, fazendo-se portadoras de más doutrinas: não lhes permitistes espalhá-las entre vós, tapando os ouvidos para não acolher as sementes por eles espalhadas, sabendo que sois pedras do templo do Pai, preparadas para a construção de Deus Pai, alçadas para as alturas pela alavanca de Jesus Cristo, alavanca que é a Cruz, servindo-vos do Espírito Santo como de um cabo. Vossa fé por um lado é o guia, enquanto a caridade se transforma em caminho que leva para cima, até Deus. Sois assim todos companheiros de viagem, portadores de Deus, portadores de um templo, portadores de Cristo, portadores do que é santo, adornados em todos os sentidos com os preceitos de Jesus Cristo. Alegro-me por isso convosco, porque tive a honra de falar-vos através dessa carta e de vos felicitar, porque, segundo a nova vida, nada amais senão somente a Deus. 

*** Portadores de Deus = Teóforos. O próprio Santo Inácio é chamado de Teóforo, pois todo o cristão é um portador de Deus, pelo Batismo, pela graça e pelo Sacrifício de Cristo, no Espírito Santo. *** 

10 – Mas também pelos demais homens rezai sem cessar. Pois neles existe esperança de conversão, de chegarem a Deus. Permiti-lhes que se instruam junto a vós por vossas obras. Diante de suas explosões de cólera, vós sereis mansos; diante de sua presunção, sereis humildes; diante de suas blasfêmias, oferecereis orações, diante dos erros deles, manter-vos-eis firmes na fé, diante de sua selvageria, sereis pacíficos, sem procurar imitá-los. Que nos encontrem como irmãos pela bondade. Esforcemo-nos por sermos imitadores do Senhor quem mais do que Ele foi injustiçado? quem mais despojado? quem mais desprestigiado? Assim não seja encontrada entre vós planta alguma do diabo, mas que em toda pureza e temperança, permaneçais em Jesus Cristo, corporal e espiritualmente. 

*** A pena de morte é condenada pela Igreja de Cristo. Todo homem tem o direito de ter a esperança da salvação, pela conversão. Não podemos encurtar a vida de nosso semelhante, por tal pena, sob o risco de condena-lo, e a nós homicidas, a perdições eterna. Devemos rezar por todos, criminosos, corruptos, etc. *** 

11 - Chegamos aos últimos tempos ‘: resta envergonharmo-nos, temermos a longanimidade de Deus, para que ela não se transforme para nós em condenação. Ou temeremos a ira vindoura, ou amaremos a graça presente. Uma das duas. Só o fato de nos encontrarmos em Cristo Jesus nos garantirá entrada para a vida verdadeira. Fora dele, nada tenha valor para vós. É n’Ele que carrego os grilhões, estas pérolas espirituais. Com elas gostaria de ressuscitar, graças à vossa oração, na qual espero ter sempre parte para compartilhar também a herança dos cristãos de Éfeso, que também sempre estiveram unidos aos Apóstolos na força de Jesus Cristo. 

*** Para Santo Inácio o martírio é uma vocação à defesa da Fé em Cristo e Sua Igreja. Pela oração de toda a Igreja ele espera merecer entrar na Glória de Deus, carregando o troféu, que são suas algemas. *** 

12 - Sei quem sou e a quem escrevo. Eu, um condenado; vós, os que alcançastes misericórdia. Eu, em perigo; vós, seguros. Vós sois o lugar de trânsito dos que são assumidos para Deus, iniciados nos mistérios com Paulo, o santificado, que recebeu testemunho, e mereceu chamar-se bem-aventurado, em cujas pegadas gostaria de encontrar-me na hora de estar com Deus, ele que em todas as cartas de vós se lembra em Cristo Jesus. 

*** Santo Inácio já chama ao Apóstolo Paulo de Santo. Quer ser como ele, e seguir suas pegadas no martírio e chegar até Deus. *** 

13 - Cuidai, pois, de reunir-vos com mais freqüência, para dar a Deus ação de graças e louvor. Pois, quando vos reunis com freqüência, abatem-se as forças de Satanás e desfaz-se o malefício, pela vossa união na fé. Nada melhor que a paz, que aniquila toda guerra de poderes celestes ou terrestres. 

*** A freqüência à Santa Missa e às orações movem todos os poderes da existência em favor dos filhos de Deus, por Jesus Cristo, O Santo de Deus. *** 

14 - Nada disso constitui novidade, se mantiverdes de modo perfeito em Jesus Cristo a fé e a caridade, que são o começo da vida e seu fim. Pois o começo é a fé e o fim a caridade. Ambas reunidas são Deus, enquanto que tudo o mais é conseqüência para a perfeição humana. Ninguém peca enquanto professa a fé, ninguém odeia enquanto possui a caridade. Conhece-se a árvore pelos seus frutos, assim os que professam ser de Cristo serão reconhecidos pelas obras. Pois nesta hora não é de profissão de fé que se trata, mas de nos mantermos na prática da fé até ao fim. 

*** A caridade (do grego Caritas) é muito mais que "caridade" como costumamos falar hoje em dia. Muitos acham que fazer caridade é dar esmolas. Temos que diferenciar do termo Ágape. Este significa o amor ao homem, pelo homem; Já Caritas, e o Amor por excelência, por Cristo Jesus; É o Amor doação, se preciso até a morte. *** 

15 - É melhor calar-se e ser do que falar e não ser. É maravilhoso ensinar, quando se faz o que se diz. Assim, um é o Mestre «que falou e tudo foi feito», também aquilo que realizou em silêncio é digno do Pai. Quem de fato possui a Palavra de Jesus pode até ouvir-lhe o silêncio; para ser perfeito, para agir pelo que fala e ser reconhecido pelo que cala. Nada escapa ao Senhor; antes, o que é segredo para nós está perto d’Ele. Façamos pois tudo como se Ele em nós morasse, para sermos seus templos e Ele nosso Deus em nós. E é essa a realidade; e ela se manifestará aos nossos olhos, se o amarmos devidamente. 

*** Mais uma vez diz que as obras devem mostrar a fé. Fé sem obras é morta; obras sem fé é paganismo. Deus realmente habita naqueles que O amam e seguem seus preceitos de amor. *** 

16 - Não vos iludais, meus irmãos, os corruptores da família não herdarão o Reino de Deus. Pois, se pereceram os que praticavam tais coisas segundo a carne, quanto mais os que perverterem a fé em Deus, ensinando doutrina má, fé pela qual Jesus Cristo foi crucificado? Um tal, tornando-se impuro, marchará para o fogo inextinguível, como também marchará aquele que o escuta. 

*** Aqueles que defendem o aborto, divórcio e amor livre, não entrarão no Reino de Deus. Estão claramente atentando contra a instituição humana mais sagrada: A Família. *** 

17 - Por isso, recebeu o Senhor unção sobre a cabeça para exalar em favor da Igreja o perfume da incorrupção. Não vos deixeis ungir pelo mau odor da doutrina do príncipe deste mundo, de forma que vos leve cativos para longe da vida que vos espera. Por que não nos tornamos prudentes, aceitando o conhecimento de Deus, isto é, Jesus Cristo? Por que morrermos tolamente, desconhecendo o dom que o Senhor nos enviou de verdade? 

18 - Meu espírito é vítima destinada à Cruz, e esta é escândalo para os incrédulos; para nós, porém, salvação e vida eterna. Onde se encontra o sábio? Onde o pesquisador? Onde a fama dos assim chamados intelectuais? Pois nosso Deus, Jesus Cristo, tomou carne no seio de Maria segundo o plano de Deus, sendo de um lado descendente de Davi, provindo por outro do Espírito Santo. Nasceu, foi batizado, para purificar a água pela sua Paixão. 

*** Santo Inácio diz-se vítima da Cruz – em letra maiúscula significando a Cruz de Cristo. Refere-se a Maria Santíssima como a Mãe do Deus Encarnado. Crer que Maria é a TEOTÓKOS (Mãe de Deus) é dogma de Fé. *** 

19 - Permaneceu oculta ao príncipe deste mundo a virgindade de Maria e seu parto, como igualmente a morte do Senhor: três mistérios de grande alcance que se processaram no silêncio de Deus. Como então foram eles manifestados aos séculos? Um astro brilhou no céu, mais que todos os astros, sua luz era inenarrável e sua novidade suscitou estranheza; todas as demais estrelas por sua vez junto com o sol e a lua formaram coro em torno do astro, ele, no entanto, projetava mais luz que todos os demais; produziu-se confusão: donde viria a novidade, tão diversa deles próprios? A conseqüência disso foi que toda a magia se desfez e que desapareceu toda cadeia de maldade; a ignorância se dissipou, o antigo reinado se destruiu, quando Deus apareceu em forma humana, para a novidade da vida eterna; começou a realizar-se o que fora decidido junto a Deus. Desde então tudo se movimentou a um tempo, porque se preparava a destruição da morte. 

*** Trecho belíssimo, onde Santo Inácio descreve como «três mistérios de grande alcance» a Virgindade de Maria, antes e depois do parto, e a morte salvífica de Cristo. Os astros são os pagãos que se admiraram com a doutrina cristã, tão diferente deles, mas foram cativados e todas a magia (crenças pagãs) se dissiparam. A morte foi destruída definitivamente. *** 

20 - Se Jesus Cristo, pela vossa oração, me tornar digno e se for de Sua vontade, num segundo escrito que desejo compor para vós, hei de esclarecer o que iniciei, a saber, o plano da salvação, em relação ao homem novo, Jesus Cristo, na fé para Ele e no amor para com Ele, em Sua Paixão e Ressurreição. Sobretudo se o Senhor me revelar, que todos, em particular e em comum, na graça que procede do Nome, vos reunis na mesma fé e em Jesus Cristo, que descende segundo a carne de Davi, filho do homem e filho de Deus, para obedecermos ao bispo e ao presbitério numa concórdia indivisível, partindo um mesmo pão, que é o remédio da imortalidade, antídoto contra a morte, mas vida em Jesus Cristo para sempre. 

*** Mais uma vez a obediência ao bispo e a Igreja; A partilha do Pão Eucarístico, que é o único remédio da imortalidade = A salvação. *** 

21 - Sou preço de resgate para vós e para os que enviastes para honra de Deus a Esmirna, donde também vos escrevo, em sinal de gratidão ao Senhor e como prova de amor a Policarpo como a vós. Lembrai-vos de mim, como também Jesus Cristo se lembra de vós. Rezai pela Igreja da Síria, donde sou levado preso para Roma. Sendo o último dos fiéis de lá fui julgado digno de servir à honra de Deus. Saudações em Deus Pai e em Jesus Cristo, nossa esperança comum. 

*** Lembrai-vos de mim, mesmo após minha morte. Santo Inácio exorta aos esmirnenses a necessidade de reverenciar os mártires após a morte destes. A veneração aos Santos é querida por Deus. O exemplo deles é perpétuo e motivo de alegria para toda a Igreja, pois são testemunhos de fé e coragem. ***