Jesus, supremo valor

Captar a luz de Cristo e fazê-la refletir em nossa existência é o objetivo central da espiritualidade.
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Ef 2,13-22 - “Graças ao Messias Jesus, vocês que estavam distantes estão perto, por causa do seu sangue, porque Ele é nossa paz; Ele, que dos dois povos fez um só e derrubou a barreira divisória, a hostilidade, abolindo em sua vida mortal a Lei dos minuciosos preceitos. Assim, com os dois, criou em si mesmo uma humanidade nova, estabelecendo a paz, e os dois, feitos um só corpo, reconciliou com Deus por meio da cruz, matando em si mesmo a hostilidade. Por isso sua vinda anunciou a paz aos que estavam longe e a paz aos que estavam perto, pois graças a Ele, uns e outros, por um mesmo Espírito, temos acesso ao Pai. Portanto, já não são estrangeiros nem recém-chegados, mas cidadãos junto com os consagrados e pertencentes à família de Deus, pois vocês foram edificados sobre o cimento dos apóstolos e profetas, com o Messias Jesus como pedra angular. Por obra sua a construção se vai levantando compacta, para formar um templo consagrado pelo Senhor; e também por obra sua que vocês vão entrando com os demais nessa construção, para formar, pelo Espírito, uma morada para Deus”.

A vida cristã propõe como valor supremo a própria pessoa de Jesus de Nazaré. Nele se revelou plenamente, de uma vez para sempre, o mistério insondável de Deus, seu objetivo com a criação, seu plano global com a história e, sobretudo, a origem, a dignidade, a missão e o destino final da pessoa humana.

Captar essa luz de Cristo e fazê-la refletir em nossa existência é o objetivo central da espiritualidade. Impelido pelo Espírito, Jesus seguiu esse roteiro: ENCARNAÇÃO-PAIXÃO-RESSURREIÇÃO-PENTECOSTES.

As implicações de Sua caminhada, por onde o Espírito também deseja conduzir cada um dos que se abrem à sua ação santificadora são, portanto, alguns passos:

ENCARNAÇÃO: Significa uma atitude de compromisso na solidariedade com a vida e as pessoas, dentro das suas reais circunstâncias, em vista dos objetivos de paz e fraternidade, de justiça e liberdade, na busca de uma vida mais plena. Para viver a encarnação que demanda de cada um de nós uma atitude de empatia, temos aqui uma excelente ferramenta que é o próprio Carisma Inaciano.

Encarnação, então, para nós inacianos, tem especial vínculo com nossa consagração: “A comunhão com Deus leva, assim, à comunhão com todos os homens dinamizando o apostolado, no espírito de Serviço em vista da Missão da Congregação, como Igreja transformadora do mundo (Const. CMSIA, CAP I 3 art. 3.10).”Todo esforço, toda luta em favor do irmão, tem para nós um motivo superior até da política, da filantropia, da ideologia, da amizade e das campanhas. Temos uma razão mais forte e muito mais comprometedora: viver a vida de Deus, assumindo as consequências do nosso batismo, sendo verdadeiras testemunhas do Deus que em nós habita, porque quis fazer sua morada entre os homens” (idem, art. 3.11).

Assim, espiritualiza-se todo aquele que segue Jesus em seu processo “encarnatório”. Portanto, o homem e a mulher espiritual é alguém que olha de frente e assume a realidade interior e exterior, pessoal e social, superando medos, indiferenças e omissões; é alguém que, em autêntica religiosidade, enfrenta os desafios e se aproxima dos homens e mulheres concretos em suas lutas e em seus dramas cotidianos, buscando maior plenitude existencial.

O segundo passo de Jesus é a PAIXÃO ou “apaixonamento”. Trata-se da de se comprometer com a vida, com as pessoas e sua história de modo apaixonado. Este passo, a exemplo da Paixão de Cristo, requer um amor entusiasmado (entusiasta), um devotamento vibrante, uma inserção convincente, que mais tarde, poderá até exigir o preço da “paixão”, no sentido de sofrimento e morte: “quero ser pasto nos dentes das feras para me tornar o pão puro de Cristo” (SIA aos Romanos). Vale, então, como preço desse amor.

Lembremo-nos, pois, que não se trata da paixão em sentido negativo, mas à paixão que valoriza o engajamento na vida do outro e até mesmo dignifica as pessoas. Entrar no processo da “paixão” de Jesus Cristo significa viver na grandeza da resposta na dedicação amorosa à causa do Reino: “eu vim para que todos tenham vida, e a tenham em abundância” (Jo 10,10), lema e cerne da espiritualidade inaciana.

O terceiro passo de Jesus é a RESSURREIÇÃO.  Viver a ressurreição aqui significa “surgir”, deixar-se erguer na direção do infinito, inserir-nos nos ilimitados horizontes de Deus, onde as forças da morte, do desânimo e do desejo de desistir nunca ditam as regras, mas sim a dinâmica aberta do amor sem fronteiras, movendo-se na dimensão do divino, do infinito de Deus.

Finalmente, o quarto e último passo da caminhada de Jesus é o PENTECOSTES. Viver no passo da perspectiva do Pentecostes como Jesus significa dinamizar, sob a ação do Espírito Santo, a realidade das pessoas e da vida, impelindo-as ao novo desejado e possível, promovendo a intercomunicação entre indivíduos e comunidades, entre valores e culturas, das diferenças ideológicas das ideias e dos gostos, sempre na perspectiva da fraterna comum-união.

Portanto, diante de uma ideia fundamentalista de espiritualidade e de pessoas que confundem espiritualidade com espiritualização da vida, diante de pessoas que desejam espiritualizar-se, mas fogem do contexto da realidade à sua volta, pensando serem realidades incompatíveis, é preciso compreender que “espiritualizar” a vida é deixar-se tocar pelo fogo do Espírito, fazendo-se seguidor de Cristo Jesus e de seus passos, na dinâmica de Seus mistérios que, verdadeiramente, renovam a vida.

(LEIA, MEDITE, REFLITA E REZE: Is 9,1-6;Jo 14,5-11.)