A Lepra desapareceu e ele foi purificado

A Boa Notícia que Jesus comunica à humanidade é que Deus não marginaliza ninguém.
LEPROSO

Comentário do pe. Alberto Maggi, OSM
Tradução e adaptação: frei Alfredo Francisco de Souza, SIA

Mc 1,40-45 – Naquele tempo, um leproso chegou perto de Jesus e, de joelhos, pediu: “Se queres, tens o poder de curar-me”. Jesus, cheio de compaixão, estendeu a mão, tocou nele e disse: “Eu quero: fica curado!” No mesmo instante a lepra desapareceu e ele ficou curado. Então Jesus o mandou logo embora, falando com firmeza: “Não contes nada disso a ninguém! Vai, mostra-te ao sacerdote e oferece, pela tua purificação, o que Moisés ordenou, como prova para eles!”. Ele foi e começou a contar e a divulgar muito o fato. Por isso Jesus não podia mais entrar publicamente numa cidade; ficava fora, em lugares desertos. E de toda parte vinham procurá-lo.

A Boa Notícia que Jesus comunica à humanidade é que Deus não marginaliza ninguém. Pelo contrário, é a religião oficial que divide as pessoas entre puras e impuras, merecedoras e não merecedoras, e não Deus.

Como dirá Pedro, nos Atos dos Apóstolos, “Agora sei que, de fato, Deus me mostrou que não faz acepção de pessoas” (At 10,34). Este é o tema que o evangelista Marcos nos apresenta no texto extraído para a liturgia deste Sexto Domingo do Tempo Comum, (Mc 1,40-45), com o episódio do leproso.

“Um leproso chegou perto de Jesus”. O personagem é anônimo. Quando nos Evangelhos um personagem é anônimo significa que é um personagem representativo, isto é, um indivíduo que indica uma situação em que qualquer pessoa poderia se identificar.

A lepra, naquele tempo, era considerada um castigo de Deus por causa de determinados pecados, e não havia cura. Em todo o Antigo Testamento são narradas apenas duas curas de lepra: um de Maria, a irmã de Moisés, por obra do próprio Deus (Nm 12,1-15), e outra de um pagão, através do profeta Eliseu (2Reis 5,14).

Como a lepra era considerada um castigo de Deus por causa de determinados pecados, o leproso não despertava compaixão, e deveria viver longe, proscrito dos povoados, à margem. Na verdade, era um morto-vivo e, sobretudo, ninguém poderia aproximar-se dele, tampouco ele poderia se aproximar de alguém. Aqui, no entanto, o leproso transgride a lei, porque se aproximou de Jesus.

Aproxima-se de Jesus e suplica de joelhos. De joelhos, porque não sabe qual poderá ser a reação de Jesus. “... Lhe pediu: se queres, podes purificar-me”. Notemos que ele não pede para ser curado, porque se sabia que não era possível alguém ser curado de lepra. Então, pede para ser purificado. Em todo o texto nunca aparece o verbo “curar” ou “tratar”, mas sempre, por três vezes, o verbo que indica a integralidade, o verbo “purificar”, indicando que o leproso quer, ao menos, o contato com Deus, pois, sendo impuro, não poderia ter esse contato.

Então, pede pelo menos o contato com Deus, porque a religião oficial o colocou numa situação desesperadora, pois uma vez que é impuro, o único que pode retirar dele a impureza é Deus. No entanto, como ele é impuro, não pode se dirigir ou se aproximar de Deus. O desespero é total. 

A reação de Jesus para com aquele homem pecador – segundo a cultura da época, ele continua a pecar, porque transgride a lei – é de compaixão. O termo “compaixão” indica um sentimento divino com o qual se restitui a vida a que não a tem.

“Estendeu a mão...”. Esta expressão é um pouco alarmante, porque o autor a toma do livro do Êxodo, do elenco das dez pragas, onde estender a mão é sempre uma ação de Deus ou de Moisés contra os inimigos do seu povo, para castigá-los.

Então, não sabendo como vai terminar o episódio o leitor se pergunta: o que, então, Jesus faz? O castiga? Porque se trata de um pecador que continua a transgredir a lei. E depois “... tocou nele. Não era necessário tocar um doente, muito menos um leproso. Quantas vezes Jesus curou usando apenas o poder se Sua palavra? Por que, então, toca no leproso, nesse caso? O toca porque era proibido. E o que acontece? “...Jesus lhe disse: Eu quero!”. A vontade de Deus é a eliminação de toda e qualquer marginalização realizada em Seu nome cancelando, assim, definitivamente, para sempre, a categoria dos impuros. Não existem pessoas impuras para o Senhor.

“Eu quero! Seja purificado!”. E Jesus, ao tocá-lo, também transgride a lei e, a partir daquele momento, juridicamente, Ele também se torna impuro.

“No mesmo instante a lepra desapareceu e ele foi purificado”. Pela terceira vez aparece o verbo “purificar”. Mas, que méritos tinha o leproso para ser purificado? Nenhum! Pelo contrário, continuava a transgredir a lei. O evangelista está apresentando a novidade de Jesus, isto é, que o amor de Deus não é atraído pelos méritos das pessoas. Esse leproso não tinha nenhum mérito, mas tinha a sua necessidade.

Apresenta, sobretudo, a grande novidade: não é verdade, como ensina a religião oficial, que o homem tenha que se purificar para se aproximar e acolher o Senhor, mas é o contrário! O que é verdade é que o homem se purifica quando acolhe o Senhor. Esta é a boa notícia que Jesus traz.

Nesse ponto parece que Jesus, de repente, muda de humor. A expressão não é “advertindo-o”, mas, afugentando-o severamente, repreendendo-o, o manda embora. Por quê? No caso, Jesus deveria tê-lo repreendido antes, quando o homem pecador transgrediu a lei e se aproximou dele. Porque, não o fez quando devia ter feito e o faz agora? E para onde o manda ir? Jesus o repreenderá por ter acreditado que Deus o teria excluído do Seu amor; Jesus o repreende e o afugenta do lugar simbólico, da sinagoga, da instituição religiosa, que ensinava uma imagem terrível de um Deus que ameaçava, castigava e afastava as pessoas dele. É por isso que Jesus o repreende.

Como pôde crer que foi abandonado e afastado por Deus? E depois lhe diz: “Não digas nada disso a ninguém...”, porque primeiro deve tomar consciência do que lhe aconteceu.

“... Vai mostrar-te ao sacerdote”. Mas, por que, “... vai mostrar-te ao sacerdote e oferecer, pela tua purificação, o que Moisés...”, e não Deus, “... ordenou”?

A lepra é um termo genérico com o qual se indicava outras doenças da pele ou do couro cabeludo. Do couro cabeludo ou outras doenças alguém poderia ser curado, mas de lepra, na verdade, não. Na verdade, para uma pessoa poder voltar e entrar no povoado, voltar à sua família, era preciso ser examinada pelos sacerdotes, que certificavam se a pessoa estava sã. E, naturalmente, essa visita não era gratuita; a pessoa a ser examinada deveria levar três cordeiros como pagamento, ou um, se comprovasse que era pobre.

Portanto, com essa orientação, Jesus o convida a comparar dois tipos de Deus: o Deus dos sacerdotes, um deus financeiramente caro de se alcançar, um deus que abandona, um Deus que marginaliza e o Pai de Jesus, um Deus cujo amor é dado gratuitamente.

De fato, Jesus diz “... como testemunho para eles!”. Na verdade, o texto original não diz que a prova ou o testemunho é “para eles”, mas diz que o testemunho que é “contra eles”.

Marcos faz referência ao livro do Deuteronômio 31,26, no qual Moisés diz: “Tomai este livro da lei e colocai-o ao lado da Arca da Aliança de Iahweh, vosso Deus. Ele estará ali como um testemunho contra ti”. O testemunho contra a religião oficial e os seus agentes é de que eles estão transgredindo e deturpando a vontade de Deus.

Pois bem, o leproso entendeu e não vai mais aos sacerdotes. De fato, “ele foi...”, abandona essa instituição que o havia tornado impuro, “... e começou a pregar”, isto é, começou a contar. O evangelista adota o mesmo verbo que adotou para o ensinamento de Jesus, para esse individuo. “E a divulgar...”, muito, não “... o fato”, como é traduzido aqui, mas o termo grego “logos” que significa palavra, ou seja, o que divulga é a mensagem.

Então, o que o homem purificado e curado anuncia não é tanto o fato que lhe aconteceu, mas a novidade: Deus não marginaliza, Deus não exclui, Deus não deixa que as pessoas fiquem longe dele, mas o Seu amor é voltado a todos!

Esta é a mensagem que o ex-leproso testemunha, “de modo que”... aqui Marcos não apresenta o sujeito Jesus, porque agora identifica Jesus com o ex-leproso como se fossem a mesma pessoa. A mensagem que o homem curado está divulgando é que Deus não é como os sacerdotes tinham feito acreditar. Na verdade, Deus não discrimina, não marginaliza os homens, mas oferece a todos o Seu amor.

“De modo que não podia entrar mais publicamente numa cidade”. Naturalmente, o evangelista se refere a Jesus. Jesus, ao tocar o leproso, tornou-se também impuro e, portanto, não pode entrar publicamente numa cidade, porque deveria primeiro submeter-se, também Ele, aos ritos de purificação. “Mas, fica fora... ”, exatamente como um leproso, “... em lugares desertos”. Os lugares onde as pessoas impuras deveriam ficar.

No entanto, como aconteceu com o leproso no início do texto, eis que “vinham a Ele de toda parte”.

Todas as pessoas se sentiram marginalizadas, que se sentiram rejeitadas e desprezadas acorrem a Jesus. Jesus manifesta um Deus que purificou a pessoa, que a colocou plenamente em comunhão com Ele. Esta é a Boa Notícia que o povo esperava, especialmente os mais afastados, mais abandonados, marginalizados e desprezados pela religião oficial.