Amarás o Senhor, teu Deus e ao teu próximo como a ti mesmo

No texto evangélico que vamos ler hoje desencadeia-se toda uma série de ataques contra Jesus, com o objetivo deslegitimá-Lo diante da multidão. 
JC

Comentário do pe. Alberto Maggi, OSM
Tradução e adaptação: frei Alfredo Francisco de Souza, SIA

Mt 22,34-40
Naquele tempo, 34os fariseus ouviram dizer que Jesus tinha feito calar os saduceus. Então eles se reuniram em grupo, 35e um deles perguntou a Jesus, para experimentá-lo: 36“Mestre, qual é o maior mandamento da Lei?” 37Jesus respondeu: “‘Amarás o Senhor teu Deus de todo o teu coração, de toda a tua alma, de todo o teu entendimento!’ 38Esse é o maior e o primeiro mandamento. 39O segundo é semelhante a esse: ‘Amarás ao teu próximo como a ti mesmo’. 40Toda a Lei e os profetas dependem desses dois mandamentos”.

O Evangelho deste Trigésimo Domingo do Tempo Comum nos apresenta o último ataque dos chefes espirituais do povo judeu, os fariseus, contra Jesus. Jesus havia denunciado no templo essas autoridades religiosas do povo como ladrões e assassinos. Ladrões, porque exploram e se apoderam do povo que era de Deus, e assassinos, porque faziam isso através da violência.

No texto evangélico que vamos ler hoje se desencadeia toda uma série de ataques contra Jesus, com o objetivo de deslegitimá-Lo diante da multidão. Mas, na realidade, em cada ataque é Jesus quem sai vencedor, o que faz com que a multidão fique cada vez mais entusiasmada com Ele.

Esta é a cena evangélica de Mt 22,34-40, escolhida para a liturgia do Trigésimo Domingo do Tempo Comum. “Então, os fariseus, tendo ouvido dizer que Ele havia calado a boca dos saduceus...”. O resultado do ataque dos saduceus que queriam ridicularizar Jesus falando sobre a ressurreição é que as multidões ficaram “tocadas” com o Seu ensinamento.

Portanto, quanto mais tentam deslegitimar Jesus, mais as multidões O admiram. “... Se reuniram juntos”. Aqui o evangelista cita o Salmo 2,2, onde se lê que os reis da terra se reuniram juntos contra o Senhor, o Messias: “Os reis da terra se insurgem, e, unidos, os príncipes conspiram contra Iahweh e contra o seu Messias”.

Os reis da terra querem manter o domínio sobre o povo e se posicionam contra o Senhor que, ao contrário, quer libertá-lo. “E um deles, um doutor da lei...”, desta vez os fariseus, visto que tinham se saído mal da última vez que tramaram uma armadilha contra Jesus, apresentando a questão do pagamento ou não do imposto a César, desta vez querem se fortalecer no “combate” contra Jesus e providenciam um especialista, um “expert”, um doutor da Lei. Um doutor da Lei é um personagem importante, é alguém cuja palavra tinha o mesmo valor e peso da Palavra de Deus. “... O interrogou para tentá-lo”.

A tradução menciona “colocá-lo à prova”, mas o verbo é “tentá-lo”. Este verbo aparece pela primeira vez no capítulo quatro como a ação das tentações do diabo, de satanás, no deserto, e depois será usado sempre para definir as ações dos fariseus e dos saduceus.

Os chefes espirituais do povo, os mesmos que pretendiam ser os mais próximos de Deus, na realidade, são instrumentos do diabo. Por quê? Porque enquanto o Deus de Jesus é amor que se põe a serviço, o deus das autoridades religiosas é o poder, que busca sempre dominar e quem está ao lado do poder como domínio, nada mais é a não ser um instrumento do diabo.

Pois bem, a tentação é esta: “Mestre...”. Pela terceira vez se dirigem a Jesus com este título, sempre na boca dos Seus inimigos, ou se dirigem assim com relação às pessoas que lhes apresentam oposição. “... Na Lei, qual é o maior mandamento”?

Notemos que a pergunta não é feita com a intenção de um aprendizado, mas é feira para condenar. Eles sabem qual é o maior mandamento, o que é mais importante: a observância do repouso do sábado, porque é o único mandamento que Deus observa. Nem Deus nem os anjos nos céus, não realizam nenhuma atividade no dia do repouso. A observância deste único mandamento corresponderia à observância de toda a Lei, assim como a transgressão deste único mandamento equivalia à transgressão de toda a Lei e, por isso, era prevista a pena de morte.

Mas por que fazem esta pergunta a Jesus? Porque Jesus tem um agir, no mínimo indiferente com relação aos mandamentos. Ignora o sábado, continua a fazer as suas atividades a favor do ser humano, e também quando o rico lhe pergunta quais mandamentos deve observar para obter a vida eterna, Jesus, ao elencá-los omite os três mais importantes, que eram privilégio exclusivo de Israel, os primeiros três mandamentos, e porque indicou aqueles que eram patrimônio da cultura universal: “não matar, não roubar, não cometer adultério”.

Portanto, a pergunta é feita para denunciar Jesus. Ele, mais uma vez, suplanta o Seu interlocutor. Perguntaram-Lhe qual é o mandamento mais importante. Na resposta Jesus não cita qualquer mandamento, mas usa uma frase com a qual iniciava o credo de Israel: “Escuta, Israel”, do livro do Deuteronômio: “Amarás o Senhor, teu Deus, com todo o teu coração, com toda a tua alma e com todo o teu entendimento”.

O Deuteronômio trazia, em terceiro lugar, “com todas as tuas forças”, que indicava os bens da pessoa, mas Jesus substitui “todas as forças” por “toda a tua mente”, ou o teu entendimento. Por que Jesus omite “as forças”? Porque o Deus de Jesus não é um Deus que absorve as energias dos homens, mas é um Deus que oferece e comunica as Suas energias aos homens.

O Deus de Jesus não pede, mas é um Deus que dá. E Jesus afirma: “Este é o primeiro e o maior mandamento”. Mas, na verdade, não se tratava de um mandamento. Jesus, portanto, eleva à altura de mandamento o amor total a Deus. Mas, rapidamente, em seguida, acrescenta: “... O segundo é semente a este”.

E aqui Jesus usa um preceito do livro do Levítico: “Amarás o teu próximo como a ti mesmo”, e conclui: “Destes dois mandamentos...”. Lembremos mais uma vez que não são, em si, mandamentos, mas Jesus eleva o amor a Deus, que se manifesta depois no amor ao próximo, ao nível dos mandamentos mais importantes, “... Dependem toda a Lei e os Profetas”.

Lei e profetas é uma expressão que se refere à Bíblia, a parte que chamamos de Antigo Testamento, precisamente composta pela lei e os profetas. Portanto, mais uma vez, uma pergunta posta para deslegitimar Jesus. Ele, porém, é quem sai vencedor, proclamando uma nova realidade no relacionamento com Deus, não mais baseado na observância dos mandamentos, mas na acolhida e na pratica do Seu amor.