Coragem! Não tenhais medo!

Porque o homem de hoje é um personagem que se perdeu a si mesmo e a Deus nos meandros das ideologias devastadoras do vazio e do nada, tão presentes em nossa sociedade.
SOBRE AS ÁGUAS

ORAÇÃO, CORAGEM E FIRMEZA NA FÉ PARA VENCER O MEDO
(Liturgia da Palavra no Décimo Nono Domingo do Tempo Comum)

A Palavra de Deus proposta para a liturgia deste Décimo Nono Domingo do tempo comum, sob alguns aspectos, nos sugere que, para que o homem reencontre a Deus e a si mesmo, precisa da força da oração, da coragem que vence o medo e da firmeza da fé em Cristo.

Porque o homem de hoje é um personagem que se perdeu a si mesmo e a Deus nos meandros das ideologias devastadoras do vazio e do nada, tão presentes em nossa sociedade.

De fato, podemos dizer que o homem contemporâneo é um “personagem à procura de autor”, para o qual a morte é o nada e o céu, uma velha fábula, como grita o personagem shakespeariano na obra “Otelo”.

Para nós, cristãos, homens e mulheres de fé, felizmente, não é assim, porque sob o aspecto humano, este autor somos nós mesmos, com a nossa capacidade de compreender e de querer, com a capacidade de discernir e de fazer escolhas; e sob o aspecto espiritual, este autor não pode ser outro a não ser o próprio Deus, enquanto origem e causa de tudo o que existe. Nós, portanto, estamos no mundo para tornar perene o que é passageiro, isto é, tornar eterno o que é banal e efêmero.

Mas, como reencontrar a si mesmo e a Deus no mundo de hoje? A Palavra de Deus nos propõe três caminhos.

O primeiro caminho é a força da oração: “Sai e permanece sobre o monte diante do Senhor, porque o Senhor vai passar”. Antes do Senhor, porém, veio um vento impetuoso e forte (...) mas o Senhor não estava no vento; (...) houve um terremoto... mas o Senhor não estava no terremoto; (...) veio um fogo, mas o Senhor não estava no fogo. E, depois do fogo, ouviu-se o murmúrio de uma leve brisa”.

No Evangelho (Mt 14,22-33) ouvimos, com relação às multidões, que Depois de despedi-las, Jesus subiu ao monte, para orar a sós. A noite chegou, e Jesus continuava ali, sozinho”.

Podemos observar que, seja na experiência de oração do profeta Elias ou na experiência de oração Jesus, encontramos dois elementos comuns. Trata-se da montanha, que destaca a realidade do afastamento do mundo, necessário para tornar verdadeira e eficaz a oração, como também do silencio, indispensável para captar os mais sutis sinais de Deus. Diante disso, precisamos nos perguntar se a nossa oração também reflete estas duas condições importantes?

O segundo caminho é a coragem que vence o medo: Jesus, porém, logo lhes disse: “Coragem”! Sou eu. Não tenhais medo!”. A nossa vida é como o lago de Genesaré, na Palestina. Quando não há tempestades, tudo caminha bem. Mas, quando temos que lidar com os pequenos ou grandes problemas de cada dia, então, frequentemente nos falta a coragem para sermos cristãos, de fato, e não só de nome, como nos exorta Santo Inácio de Antioquia, para que esta mesma coragem vença o medo ao qual as tempestades nos submetem.

Jesus, porém, nos assegura que não nos deixa sozinhos à mercê das ondas. Pelo contrário, é justamente nos momentos de necessidade e de perigo que Ele está mais perto de nós. Mais do que possamos imaginar. Não é um fantasma, que não existe, mas é alguém real, pronto para segurar a nossa mão, nos dizendo que é possível seguir os Seus passos, também no caminho do Calvário e da Cruz.

O terceiro caminho é a firmeza da fé em Cristo: “Homem de pouca fé, por que duvidaste?” No momento em que Pedro duvida do Senhor, não está duvidando apenas dele. Está duvidando de que possa, com a força de Cristo, seguir os seus passos também na entrega de Sua vida. É, justamente, nesse momento que corre o risco de afundar, embora seja, certamente, um bom nadador, já que era, igualmente, um bom pescador. Quando presumimos superar os perigos com as nossas próprias forças humanas, com os recursos que podemos providenciar, sem contar com o Senhor, ou com os valores do Reino que Ele veio inaugurar, é quando ficamos mais expostos e vulneráveis ao fracasso.

Jesus quer que a nossa fé nele seja uma fé que não hesite, principalmente nos momentos em que o testemunho nos é exigido; quer que seja uma fé que nos faça evitar a pretensão de confiar em nossas próprias capacidades ou bens, aos quais podemos nos apegar.

Portanto, quer que tomemos consciência de que somente através da confiança na salvação que Ele veio nos trazer, através do dom da Sua vida, é que podemos ser salvos. Podemos dizer que a nossa fé é firme a esse ponto?

Que ao ouvirmos a Palavra de Deus hoje, tenhamos a certeza de que, mesmo reconhecendo que temos muito deste homem contemporâneo, perdido nas profundezas da filosofia do vazio e do nada, podemos reencontrar a nós mesmos, como também podemos reencontrar o Deus de Jesus que se deixa encontrar na brisa suave, mediante a força a oração, a coragem e a firmeza da fé em Jesus Cristo.