Deixai crescer um e outro até a colheita!

No evangelho segundo Mateus estão presentes não só as tentações que Jesus sofreu no deserto, mas também as possíveis tentações da Comunidade dos fieis, em todas as épocas.
JOIO

Comentário do pe. Alberto Maggi, OSM
Tradução e adaptação: frei Alfredo Francisco de Souza, SIA

 

Mt 13,24-43 - Naquele tempo, 24Jesus contou outra parábola à multidão: “O Reino dos Céus é como um homem que semeou boa semente no seu campo. 25Enquanto todos dormiam, veio seu inimigo, semeou joio no meio do trigo, e foi embora. 26Quando o trigo cresceu e as espigas começaram a se formar, apareceu também o joio. 27Os empregados foram procurar o dono e lhe disseram: ‘Senhor, não semeaste boa semente no teu campo? Donde veio então o joio?’ 28O dono respondeu: ‘Foi algum inimigo que fez isso’. Os empregados lhe perguntaram: ‘Queres que vamos arrancar o joio?’ 29O dono respondeu: ‘Não! Pode acontecer que, arrancando o joio, arranqueis também o trigo. 30Deixai crescer um e outro até a colheita! E, no tempo da colheita, direi aos que cortam o trigo: arrancai primeiro o joio e amarrai-o em feixes para ser queimado! Recolhei, porém, o trigo no meu celeiro!’” 31Jesus contou-lhes outra parábola: “O Reino dos Céus é como uma semente de mostarda que um homem pega e semeia no seu campo. 32Embora ela seja a menor de todas as sementes, quando cresce, fica maior do que as outras plantas. E torna-se uma árvore, de modo que os pássaros vêm e fazem ninhos em seus ramos”. 33Jesus contou-lhes ainda uma outra parábola: “O Reino dos Céus é como o fermento que uma mulher pega e mistura com três porções de farinha, até que tudo fique fermentado”. 34Tudo isso Jesus falava em parábolas às multidões. Nada lhes falava sem usar parábolas, 35para se cumprir o que foi dito pelo profeta: “Abrirei a boca para falar em parábolas; vou proclamar coisas escondidas desde a criação do mundo”. 36Então Jesus deixou as multidões e foi para casa. Seus discípulos aproximaram-se dele e disseram: “Explica-nos a parábola do joio!” 37Jesus respondeu: “Aquele que semeia a boa semente é o Filho do Homem. 38O campo é o mundo. A boa semente são os que pertencem ao Reino. O joio são os que pertencem ao Maligno. 39O inimigo que semeou o joio é o diabo. A colheita é o fim dos tempos. Os ceifeiros são os anjos. 40Como o joio é recolhido e queimado ao fogo, assim também acontecerá no fim dos tempos: 41o Filho do Homem enviará seus anjos, e eles retirarão do seu Reino todos os que fazem outros pecar e os que praticam o mal; 42e depois os lançarão na fornalha de fogo. Aí haverá choro e ranger de dentes. 43Então os justos brilharão como o sol no Reino de seu Pai. Quem tem ouvidos, ouça”.

No evangelho segundo Mateus estão presentes não só as tentações que Jesus sofreu no deserto, mas também as possíveis tentações da Comunidade dos fieis, em todas as épocas.

Jesus propõe aos Seus discípulos três parábolas que se referem a três grandes tentações da comunidade, a saber: a tentação de ser uma comunidade de eleitos, de pessoas superiores, a tentação da grandeza e a tentação do desânimo.

Para estas parábolas Jesus toma três elementos da natureza: o trigo, a mostarda e o fermento, que demandam paciência no processo de crescimento e para o qual qualquer pressa ou aceleração no processo podem ser nefastas. Estas parábolas servem para a compreensão sobre o que é, de fato, o Reino dos Céus, expressão típica de Mateus, que não indica um Reino nos Céus, mas o Reino de Deus, isto é, a sociedade alternativa que Jesus veio propor.

A primeira parábola fala de um homem que semeou boa semente, mas à noite o inimigo vem e semeia o joio. O joio é uma planta cujos grãos são tóxicos e tem um efeito narcótico. Os servos se admiram que no campo do senhor esteja presente também o joio, colocando em dúvida a bondade da sua semeadura, e lhe perguntam: “Não semeaste boa semente?” E o patrão responde: “Foi algum inimigo que fez isso!”

Eis, então, que os servos zelosos sugerem prontamente: “Queres que vamos arrancar o joio?” Contudo, esta atitude é mais danosa e nociva do que o joio no meio do trigo. O zelo dos servos é mais perigoso do que qualquer coisa que o próprio joio pode causar. E o patrão responde: “Não, para que não aconteça que arrancando o joio, desenraizeis o trigo junto com ele”.

Depois virá o momento da maturação e, então, ficará óbvio qual dos dois será o trigo, que oferece a vida e qual será o joio que, ao contrário, é tóxico e produz a morte.

Na segunda parábola Jesus se afasta da imagem grandiosa do reino que havia sido descrita pelo profeta Ezequiel no capítulo 17 do seu livro. O profeta imaginava uma montanha altíssima e sobre esta, um cedro. O cedro é a árvore mais bela, chamada de “a rainha das árvores” e, portanto, algo que de longe chama a atenção.

Jesus se distancia de tudo isso, porque “O Reino dos Céus é como um grão de mostarda...”, que é o menor elemento, quase microscópico, “... que um homem pega e semeia no seu campo. Embora ela seja a menor de todas as sementes, quando cresce, fica maior do que as outras plantas". Prestemos atenção neste detalhe.

Não se trata, portanto, de uma planta que cresce no alto de uma montanha, como o cedro, mas no quintal de casa. A planta da mostarda - que nem se pode chamar de árvore – no momento do seu desenvolvimento pleno atinge, de dois metros e meio a três, de altura. É uma planta comum que não chama a atenção.

O Reino de Deus, mesmo no momento do seu desenvolvimento pleno, não chamará a atenção devido a sua grandeza, mas, por se tratar de uma semente de tamanho minúsculo, o vento a leva para todos os lugares, ao ponto de contagiar e fecundar vários terrenos por onde for espalhada.  

Finalmente, a terceira parábola que se refere ao Reino diz: “O Reino dos Céus é como o fermento que uma mulher pega e mistura com três porções de farinha, até que tudo fique fermentado”. Por que o evangelista usa esta unidade de medida?

Três porções de farinha somam quarenta quilos. Esta unidade de medida se encontra em três episódios do Antigo Testamento, que dizem respeito à realização de tudo quanto era, aparentemente, considerado impossível.

Três medidas são o quanto Abraão e Sara oferecem quando lhes é feito o anúncio de que terão um filho, não obstante a idade avançada deles. É a mesma medida usada por Gedeão, que se sente abandonado por Deus e crê que as promessas de libertação do Senhor não irão se realizar. É também a medida usada por Ana, a mãe do profeta Samuel, que era estéril e, não obstante a sua esterilidade, deu à luz um filho. Portanto, trata-se de situações em que aquilo que parecia impossível torna-se realidade.

Jesus assegura que a força da Sua mensagem é tamanha, que será capaz de fermentar o mundo inteiro. Três parábolas e a única para a qual os discípulos pedem explicação, neste contexto, é a do joio semeado no meio do trigo. Pedem explicação não porque não haviam compreendido, mas porque não estavam de acordo com a lógica e o ensinamento de Jesus para esta parábola. 

Os discípulos estão tomados pelos sentimentos de superioridade, de ambição e de rivalidade entre eles e, portanto, não estão de acordo sobre o fato de não ser uma comunidade de justos eleitos e pessoas superiores aos demais. Aproximam-se de Jesus e, de modo imperativo, e até mesmo arrogante, lhe dizem: “Explica-nos a parábola do joio”!

O tom é de quem discorda e está insatisfeito. Jesus a explica: “Aquele que semeia a boa semente é o Filho do Homem”. Filho do Homem indica Jesus na Sua condição divina. “O campo é o mundo. A boa semente são os que pertencem ao Reino”, ou os filhos do Reino.

Os que pertencem ao Reino, ou filhos do Reino, são aqueles que acolheram as condições para que o Reino se torne realidade, ou seja, a conversão, a substituição dos falsos valores que regem a sociedade, por valores verdadeiros para acolher os novos propósitos de Jesus, isto é, a partilha, o serviço e o amor universal.

“O joio são os que pertencem ao maligno” – ou, os filhos do maligno – termo que indica os que se assemelham ao pai, e este inimigo Jesus localiza no diabo, que é expressão do poder e do domínio.

“A colheita é o fim dos tempos”. Aqui percebamos que Jesus não se refere ao fim do mundo; “os ceifeiros são os anjos”, isto é, os enviados do Senhor. E Jesus acrescenta: “Como o joio...” – que é tóxico – “... é recolhido e queimado ao fogo, assim também acontecerá no fim dos tempos. O Filho do Homem enviará seus anjos, e eles retirarão do seu Reino todos os que fazem outros pecar e os que praticam o mal”.

No texto original a expressão usada é “O Filho do Homem enviará Seus anjos e eles retirarão do seu Reino os escândalos”. A expressão escândalo ocorre também no confronto entre Jesus e Pedro, quando Jesus lhe dirá: "Apartai-vos de mim, você que é causa de escândalo". O escândalo é devido à ideia de um messias triunfante, de um messias comprometido com o sucesso, muito ao contrário do que se manifestará em Jesus. Portanto, Jesus se refere a todos aqueles que buscam o triunfo e o sucesso, “E todos aqueles que praticam a iniquidade”.

A expressão foi usada aqui para os discípulos que são construtores do nada, como Jesus havia dito, porque anunciam a mensagem, não como expressão de suas vidas, mas apenas usam o nome do Senhor. Convertem os outros, mas não se converteram a si mesmos. Jesus considera estes como os que cometem a iniquidade, isto é, os que nada constroem.

Aqui Jesus toma outra imagem “emprestada” do profeta Daniel: “Os lançarão na fornalha de fogo”, que significa a destruição completa, símbolo da morte, “aí haverá choro e ranger de dentes”.

A imagem indica o desespero diante do fracasso iminente. Ainda usando uma expressão do livro de Daniel, Então os justos brilharão como o sol no Reino de seu Pai”.

A grande mensagem é que quem escolhe a vida, terá vida. É este o significado desta parábola: quem produz vida entra na plenitude da vida. Quem está morto e produziu morte, afunda-se na plenitude da morte.