“Eis o Noivo! Ide ao seu encontro”!

Jesus conhece aqueles para os quais a ortodoxia e os atestados de fidelidade se traduzem em atitudes plenamente humanas, indo ao encontro das necessidades e dos sofrimentos dos outros.
AS DEZ

Comentário do pe. Alberto Maggi, OSM
Tradução e adaptação: frei Alfredo Francisco de Souza, SIA

Mt, 25,1-13 - Naquele tempo, disse Jesus a seus discípulos esta parábola: 1“O Reino dos Céus é como a história das dez jovens que pegaram suas lâmpadas de óleo e saíram ao encontro do noivo. 2Cinco delas eram Imprevidentes, e as outras cinco eram previdentes.  3As imprevidentes pegaram as suas lâmpadas, mas não levaram óleo consigo. 4As previdentes, porém, levaram vasilhas com óleo junto com as lâmpadas.  5O noivo estava demorando, e todas elas acabaram cochilando e dormindo. 6No meio da noite, ouviu-se um grito: ‘O noivo está chegando. Ide ao seu encontro!’ 7Então as dez jovens se levantaram e prepararam as lâmpadas. 8As imprevidentes disseram às previdentes: ‘Dai-nos um pouco de óleo, porque nossas lâmpadas estão se apagando’. 9As previdentes responderam: ‘De modo nenhum, porque o óleo pode ser insuficiente para nós e para vós. É melhor irdes comprar dos vendedores’. 10Enquanto elas foram comprar óleo, o noivo chegou, e as que estavam preparadas entraram com ele para a festa de casamento. E a porta se fechou. 11Por fim, chegaram também as outras jovens e disseram: ‘Senhor! Senhor! Abre-nos a porta!’ 12Ele, porém, respondeu: ‘Em verdade eu vos digo: Não vos conheço!’ 13Portanto, ficai vigiando, pois não sabeis qual será o dia nem a hora”.

 

O capitulo 25 do Evangelho segundo Mateus começa com o último dos cinco discursos que subdividem a sua obra, imitando, de certa forma, os cinco livros da lei atribuídos a Moisés.

Este capítulo apresenta a última vez na qual o evangelista fala do Reino dos Céus que, é bom lembrar, não se trata de um reino nos céus, mas significa o Reino de Deus.

O autor faz isso religando o discurso do Reino dos Céus com esta parábola, ao final do discurso da montanha, no capítulo sétimo. Especialmente quando Jesus afirma: “Nem todo aquele que me diz: Senhor, Senhor...”, deixando claro que não bastam os atestados de ortodoxia para estar em comunhão com Ele, mas que é preciso colaborar com a ação criadora do Pai: “Quem cumpre a vontade do meu Pai...”.

Jesus havia concluído o discurso da montanha com a imagem de um homem “louco”, que se põe a construir a sua casa sobre a areia - que na primeira enchente desmorona - e do homem sábio e inteligente que, ao contrário, constrói a sua casa, isto é, a sua existência, sobre a rocha. Essa imagem se refere a quem escuta a Sua palavra, mas depois não a põe em prática e, portanto, a sua vida cai em ruína; como também de quem, ao contrário, escuta a Sua palavra e depois a pratica.

O Evangelho segundo Mateus (25,1-13), escolhido para este Trigésimo Segundo Domingo do Tempo Comum, começa com um “Então...”. Dessa forma Mateus se refere à vinda do Senhor em suas manifestações na história da humanidade.  

“O Reino dos Céus... ”, que é a sociedade alternativa que Jesus veio realizar, “... será semelhante a dez virgens”. Por “virgens” entenda-se “moças” ainda solteiras, portanto, em idade apropriada para o matrimônio, “... que pegaram suas lâmpadas”. Não se trata de lamparinas de uso caseiro, mas de tochas utilizadas para iluminar o caminho nas noites escuras, “... e saíram ao encontro do esposo”, uma imagem do profeta Oséias na qual Deus era o esposo e o Seu povo, a sua “esposa”.

“Cinco delas eram néscias”. Néscio é alguém desprovido de conhecimento, de discernimento, e ainda, de acordo com o dicionário, estúpido, ignorante. A expressão usada para essas cinco é, literalmente, “loucas”. Notemos que o evangelista usa o mesmo termo que Jesus proíbe que os Seus seguidores usem uns para com os outros no interior da comunidade: “quem chamar o seu irmão de louco...”, termo que tinha sido usado na conclusão do discurso da montanha para o homem sem discernimento, estúpido e tolo, que construiu a sua casa sobre a areia e caiu em ruína.

“E cinco delas eram sábias”. Sábias como o homem que construiu a sua casa sobre a rocha. “As loucas levaram as suas lâmpadas, mas não levaram óleo consigo. As sábias, ao contrário, junto com as lâmpadas, levaram o óleo em pequenos vasos também. Como o esposo demorava, cochilaram e dormiram”. O tema, portanto, não é o da vigilância porque todas as dez moças dormiram, mas se trata de ter ou não capacidade de ir ao encontro do Esposo.

“À meia noite ouviu-se um grito: eis o noivo! Ide ao seu encontro”. Aqui, Jesus não se refere aos costumes matrimoniais da época. Aliás, Ele chega até a invertê-los porque, de acordo com o costume, não eram as noivas que deviam ir ao encontro dos noivos, mas a noiva que, acompanhada das suas amigas, esperava o noivo que vinha ao seu encontro, portanto, o contrário.  Por que essa inversão? Simplesmente para chamar a atenção dos ouvintes. “Então, todas as virgens se levantaram e prepararam as suas lâmpadas”, e aqui existe um problema.

“As néscias disseram às sábias: dai-nos um pouco do vosso óleo, porque as nossas lâmpadas estão se apagando”. Num primeiro momento a resposta das cinco virgens sábias pode parecer estranha e até mesmo egoísta, quando dizem: “Não, para que não venha a faltar a nós e a vós; ide aos vendedores e comprai”. Não estão sendo negativas, tampouco egoístas, porque agem com razão e baseadas na sabedoria que possuem, já que é melhor poucas com as lâmpadas acesas para ir ao encontro do noivo, do que todas, porém, no escuro. Portanto, o óleo representa algo que todos podem ter, mas que não pode ser emprestado. Vamos compreender o por quê.

“Enquanto foram comprar o óleo, eis que o noivo chegou”. Aqui é apresentada a imagem do encontro nupcial festivo, para nos ensinar que a vida cristã não é feita de sacrifícios penosos e insuportáveis, mas é um crescendo de alegria no relacionamento com o noivo.

“E as virgens que estavam preparadas entraram com ele para as núpcias, e a porta foi fechada”. Temos aqui outra incongruência, pois todo o povoado, toda a cidade era convidada quando havia uma festa de núpcias e, portanto, as portas nunca eram fechadas. O autor, porém, reforça essa imagem da porta fechada, simplesmente para atrair a atenção do público ouvinte e, de fato, para trazer à tona o que Jesus havia expressado no final do discurso da montanha, ligando a porta fechada à ruína de quem constrói sua existência sobre o nada, sua “casa sobre a areia”.

“Mais tarde chegaram também as outras virgens e começaram a dizer: Senhor, Senhor, abre-nos!”, exatamente como os que tinham gritado “Senhor, Senhor”, e o Senhor diz, “não vos conheço, vós que praticais a iniquidade”, literalmente, “construtores do nada”.

Fica claro, portanto, que não basta o crer, não basta o “atestado” de ortodoxia e tampouco basta a fidelidade, pois o Senhor nos chama a ser colaboradores da Sua ação criadora, e a ação criadora de Deus se realiza comunicando vida. É isso que significa esse óleo.

No Evangelho segundo Mateus Jesus dirá: “Assim, resplandeça a vossa luz diante dos outros homens para que vejam as vossas boas obras e rendam glória ao vosso Pai que está nos Céus”. Portanto, a luz e o próprio óleo que gera luz são as boas obras, e não é possível alguém emprestar boas obras aos outros. Ninguém consegue fazer boas obras no lugar do outro! Elas fazem parte dos atos da pessoa ou não, isto é, existem ou não existem! 

Portanto, o noivo responde exatamente como Jesus respondeu aos “obreiros da maldade”, isto é, aos que praticam a iniquidade: “... Em verdade eu vos digo: não vos conheço”. Jesus, o Senhor, não conhece quem julga ter uma relação verdadeira com Ele baseada na ortodoxia e nos “atestados de fidelidade”. Ele conhece aqueles para os quais a ortodoxia e os atestados de fidelidade se traduzem em atitudes plenamente humanas, indo ao encontro das necessidades e dos sofrimentos dos outros.

O convite final enfatiza: “Portanto, vigiai!”. Vigiar, no caso das virgens, não significa permanecer acordadas durante toda a noite porque, de fato, todas as dez virgens dormiram. Significa ser e estar totalmente conscientes e atentos ao que acontece, vivendo com plenitude todos os momentos da própria vida, para ser capazes de colaborar com as ações criadoras do Senhor.