Ensinava como quem tem autoridade

No Evangelho de Jesus Cristo segundo Marcos, por três vezes, Jesus entra numa sinagoga. Sempre será uma ocasião de conflito.
sinagoga

Comentário do pe. Alberto Maggi, OSM
Tradução e adaptação: frei Alfredo Francisco de Souza, SIA

Mc 1-21-28
21
Na cidade de Cafarnaum, num dia de sábado, Jesus entrou na sinagoga e começou a ensinar. 22Todos ficavam admirados com o seu ensinamento, pois ensinava como quem tem autoridade, não como os mestres da Lei. 23Estava então na sinagoga um homem possuído por um espírito mau. Ele gritou: 24“Que queres de nós, Jesus Nazareno? Vieste para nos destruir? Eu sei quem tu és: tu és o Santo de Deus”. 25Jesus o intimou: “Cala-te e sai dele!” 26Então o espírito mau sacudiu o homem com violência, deu um grande grito e saiu. 27E todos ficaram muito espantados e perguntavam uns aos outros: “O que é isto? Um ensinamento novo dado com autoridade: Ele manda até nos espíritos maus, e eles obedecem!” 28aE a fama de Jesus logo se espalhou por toda a parte, em toda a região da Galileia.

No Evangelho de Jesus Cristo segundo Marcos, por três vezes, Jesus entra numa sinagoga. Sempre será uma ocasião de conflito.

O número três, segundo a linguagem simbólica da bíblia, significa completude. A intenção do autor é destacar a completa oposição entre Jesus, o Filho de Deus, que veio para libertar o povo, e uma instituição que pretende dominar a Deus, mas que, na realidade, domina o povo.

Na primeira vez que Ele está na sinagoga, como veremos no texto deste Quarto Domingo do Tempo Comum, é interrompido. Na segunda vez, os fariseus, juntamente com os herodianos decidem matá-lo, porque havia transgredido publicamente o mandamento do sábado. Na terceira vez, Jesus está na sua terra natal, em Nazaré, quando é acusado de agir em nome de Belzebu, como se fosse um bruxo ou algo parecido, ao expulsar o demônio de um homem. É por tudo isso que Jesus se admira com a incredulidade deles.

“Chegaram a Cafarnaum e, imediatamente, Jesus entrou na sinagoga, no sábado...", embora o sábado fosse o dia de culto, Jesus “... ensinava”. Observemos que Marcos não diz que Jesus participava de um culto na sinagoga, mas que Ele entra na sinagoga e imediatamente se põe a ensinar. “E todos estavam admirados com o seu ensinamento”. O ensinamento de Jesus os deixa maravilhados, admirados.

“Ele, de fato, os ensinava como alguém que tem autoridade, e não como os escribas”. Os escribas eram leigos que, depois de toda uma vida dedicada ao estudo e ao aprofundamento da Sagrada Escritura, recebiam, através da imposição das mãos, a transmissão do espírito de Moisés e do espírito dos profetas. A partir de então, tornavam-se os teólogos oficiais do sinédrio e a sua autoridade era maior do que a dos sumos sacerdotes e, inclusive, do próprio rei.

Segundo ensina o Talmude, o livro sagrado dos judeus, as decisões e as palavras dos escribas são superiores até mesmo à Torah. Portanto, representavam o magistério infalível da época.

O ensinamento dos escribas era considerado a própria palavra de Deus. Era superior, principalmente, porque em caso de controvérsia, era necessário e preferível crer nos escribas.

Pois bem, quando Jesus chega a Cafarnaum e se põe a ensinar, o povo fica surpreso, admirado, ao escutar um ensinamento diferente. A mensagem de Jesus é a resposta de Deus ao desejo de plenitude de vida, que cada pessoa traz dentro de si. Já a mensagem dos escribas, que depois Jesus denunciará, na realidade, eram apenas preceitos humanos.

Na verdade, “vendiam” como ensinamento divino o que, na verdade, era a vontade deles, os seus preceitos para dominar o povo. O profeta Jeremias já havia mencionado a denúncia do Senhor que diz, voltando-se esses escribas: “Como podeis dizer: somos sábios porque temos a lei do Senhor? A mentira reduziu a pena mentirosa dos escribas”.

Então, os escribas, para o seu próprio poder, para ter o domínio e pela própria conveniência deturparam a lei de Deus. E, assim como Jesus vai denunciar, ensinam preceitos humanos anulando a palavra de Deus.

Diante dessa novidade o ensinamento de Jesus, que é ouvido com admiração e surpresa, pois é algo totalmente novo e, por isso mesmo, urgente, e porque é urgente, Jesus o faz “imediatamente”.  

É a mesma expressão que o evangelista indicou no momento em que Jesus entra em Cafarnaum e se põe a ensinar. Portanto, Jesus se põe a ensinar, subitamente “na sinagoga deles”, como podemos observar. Com essa expressão o autor do Evangelho destaca a distância entre Jesus e os escribas e dos seus ensinamentos. A sinagoga não pertence à comunidade cristã.

“Havia um homem”, portanto, apenas um indivíduo, “possuído por um espírito impuro”. O que significa “espírito impuro”? Espírito significa força, energia. Quando essa força provém de Deus, chama-se “santo”, não só pela qualidade da força, mas principalmente pela qualidade de santificar, de tirar o homem da esfera do mal e atraí-lo para a esfera do bem; retirá-lo das trevas e levá-lo para a luz.

Portanto, o espírito, quando provém de Deus atrai o homem para dentro da dimensão divina do amor. Quando esse espírito provém de forças contrárias a Deus, se chama impuro porque mantém o homem nas trevas, ou seja, na morte.

Como narra o Evangelho, há um homem que está possuído por um espírito impuro. Ser possuído por um espírito impuro significa alguém que aderiu a uma ideologia, uma doutrina que o torna incompatível com o ensinamento de Jesus, como veremos.

“Começou a gritar”. Então, logo que Jesus começa o Seu ensinamento, subitamente há alguém que começa a gritar: “dizendo: que queres de nós?” É estranho, pois trata-se de uma única pessoa e, no entanto, fala no plural, e o chama “Jesus Nazareno”, isto é, recorda a origem de Jesus. Nazaré, de fato, era considerado o antro dos nacionalistas belicosos.

“Vieste para nos destruir?” Mas o que é que Jesus está destruindo? Quem é que se sente ameaçado pelo ensinamento de Jesus? Com certeza não se trata dos demais presentes que, aliás, estão admirados de modo favorável com o ensinamento de Jesus, e que o escutam como a resposta de Deus ao seu desejo de plenitude de vida. Quem é que Jesus está destruindo com o Seu ensinamento? Jesus está destruindo a autoridade dos escribas, que pretendiam falar em nome de Deus. É esta classe que se sente ameaçada.

E diz: “... eu sei quem tu és: o santo de Deus!” O “santo de Deus” é uma expressão que indica o messias que deveria observar a lei e impor a observância dessa mesma lei. O homem possuído pelo espírito impuro invoca o que é a tarefa de Jesus: a tradição e a lei. Mas Jesus não entra no diálogo e “lhe ordenou severamente: cala-te e sai dele!”. No conflito entre o Espírito de Deus e o espírito impuro é o Espírito de Deus quem vence.

“E o espírito impuro destruindo-o...”. Por que destruindo-o, ou “sacudindo-o com violência”? Na verdade, ter que reconhecer que o ensinamento religioso ao qual se aderiu não provinha de Deus, mas, ao contrário, distanciava d’Ele, causa mesmo uma profunda laceração no indivíduo.

Sempre nos ensinaram que certas coisas eram sagradas. Descobrir que, não só não eram sagradas, mas nos distanciavam de Deus, isto é o tormento, a laceração profunda. É o que acontece com o homem na sinagoga.

“... E gritando forte, saiu dele. Todos ficaram muito espantados...”. Não se trata de um espanto por causa do temor, no sentido de medo, mas ao contrário, de surpresa, maravilhamento. Não é medo, é uma agradável surpresa, “... tanto que se perguntavam uns aos outros: quem é este? Um ensinamento novo”.

Na verdade não se trata apenas de um novo ensinamento, um preceito a mais do que aquele ensinamento dos escribas, mas de um novo ensinamento. O termo usado pelo evangelista para “novo”, indica uma qualidade melhor, isto é, superior.

Então, as pessoas ouvem um novo eco na mensagem de Jesus; escutam nessa mensagem a Palavra de Deus que chega ao coração aos seus corações, muito diferente do ensinamento dos escribas, que era um ensinamento repetitivo, destinado, sobretudo, a incutir um sentido de culpa e de indignidade das pessoas. O ensinamento de Jesus é o eco da Palavra de Deus, uma Palavra que, se acolhida, transforma a vida das pessoas.

“Um ensinamento novo dado com autoridade”. Com esta expressão o evangelista indica que o povo reconhece que quem tem o mandato divino de anunciar a Palavra não são os escribas, mas Jesus. É por isso que o homem que havia aderido à doutrina dos escribas se sente ameaçado e, com ele, toda a categoria desses teólogos também se sente ameaçada. Por isso o homem exclama: “... viestes para nos arruinar?”.

As pessoas reconhecem que no ensinamento de Jesus existe a autoridade divina, o mandato divino, e compreendem que Deus não se manifesta na doutrina imposta dos escribas, mas na atividade libertadora de Jesus. Esta é a ruina, a destruição!

“Ele manda até mesmo nos espíritos impuros e eles o obedecem!”. O evangelista indica que a libertação da doutrina dos escribas é agora iniciada e, de fato, “... a sua fama se espalhou logo por toda a parte, em toda a região da Galileia”. O anúncio de Jesus agora se propaga e a proposta de plenitude de vida é acolhida pelas pessoas que dela eram sedentos.