"Estás com Inveja porque estou sendo bom?"

Enquanto seguimos no ritmo dos nossos trabalhos, estudos e nossa caminhada de comunidade cristã, sentimos também o cansaço do peso das preocupações de cada dia.
IMAGEM TEXTO ALFREDO

Reflexão da Palavra de Deus no Vigésimo Quinto Domingo do Tempo Comum

Aqui estamos nós, mais uma vez, neste Vigésimo Quinto Domingo do Tempo Comum, diante de mais uma das incríveis parábolas de Jesus.

Enquanto seguimos no ritmo dos nossos trabalhos, estudos e nossa caminhada de comunidade cristã, sentimos também o cansaço do peso das preocupações de cada dia.

É nessa dinâmica da vida que Jesus, na parábola do Evangelho (Mt 20,1-16a), escolhido para a liturgia deste domingo, ultrapassa toda a lógica de justiça humana, sobretudo neste momento de crise em que, para muitos, encontrar um trabalho parece uma utopia, tão preocupante quanto o risco de perdê-lo.

Porque a parábola de hoje nos fala de trabalho, de salário, de contratação e de contrato, de recompensa, mas através de métodos e práticas que, de forma alguma, correspondem à justiça verdadeira, de fato.

Ao mesmo tempo, apresenta uma palavra que brilha luminosa para além do direito e das reinvindicações: a palavra “bondade”. “Estou sendo bom”, diz Jesus. Em meio ao murmurinho e às criticas no relacionamento com o patrão, humanamente compreensíveis e justificáveis, encontramos a expressão: “Eu estou sendo bom”.  Esta expressão de Jesus “desestabiliza” toda a lógica humana. Porque esta parábola, como todas as parábolas de Jesus, se refere sempre à outra realidade e, portanto, é preciso interpretá-la, ir além da simples narrativa.

Algumas parábolas de Jesus, então, são ilógicas, humanamente falando, incompreensíveis “aos outros”, como Ele mesmo afirmou depois de ter contado a parábola do semeador, explicando-a depois, aos seus discípulos mais próximos.

Portanto, mais uma vez o Deus de Jesus nos desconcerta: “Meus pensamentos não são como os vossos pensamentos, e vossos caminhos não são como os meus caminhos". É exatamente o que lembra o profeta Isaías na primeira leitura (55,6-9).

Os pensamentos e caminhos de Deus ultrapassam, assim como a cruz e o dom de doar-se plenamente, ultrapassa a nossa lógica.

É natural que, instintivamente, cada um de nós se sinta solidário e fique do lado dos operários da primeira hora. Aqueles que estavam na luta desde muito cedo, baseados na ideia de que não é justo dar o mesmo pagamento a quem trabalhou muito e a quem trabalhou pouco, quase nada.

Não é justo, se no centro de toda essa discussão colocarmos o dinheiro e a lei. Mas se nos deixarmos provocar por esta parábola, se, como Deus, colocarmos no centro, não o dinheiro, mas o ser humano, não a produtividade, mas a pessoa, então não poderemos reclamar contra quem pretende assegurar a vida para todos.

A parábola nos convida a conquistar o olhar de Deus. Se, de fato, entrarmos na lógica de Deus, vamos nos abrir a uma nova perspectiva.

Na verdade, perceberemos que Deus nos convida a trabalhar na Sua Vinha, não como um empregador distante e separado dos seus trabalhadores, mas como aquele que dá ao homem os frutos da Sua própria Vinha, e que faz dos trabalhadores, participantes da Sua obra redentora.

O “trabalhar na Vinha do Senhor” é a própria recompensa, já que Deus Se dá totalmente ao homem num dom gratuito, contínuo, fiel, sem limites, isto é, dá todo o seu amor. No entanto, em troca, só pede que aceitemos a Sua doação, o dom de Si mesmo.

A resposta decisiva ao Seu chamado, o “arregaçar as mangas” para colocar-se na obra, ainda que seja por uma hora da vida apenas, pode tornar a vida inteira, finalmente, redimida.

Pensemos naquele intenso momento de amor e de fé que fez do “último” ladrão crucificado, ser o “primeiro” no Reino.

Nenhum homem, em certo sentido, pode ou deve ser comparado a outro. Cada um tem o seu próprio chamado, a sua hora, a sua história.

Cada um é o “preferido” ao qual Deus destina o Seu “salário” de salvação, isto é, o pagamento do salário completo, Ele mesmo, totalmente.

Nessa aventura de amor infinito, que é a história da nossa salvação, o maior e mais evidente contraste, ou seja, o que mais fere o esplendor da Bondade de Deus é a inveja que podemos nutrir por este dom que vai além de qualquer merecimento, revelando a medida de Deus, totalmente diferente da nossa.

Sucumbir à inveja tem em si mesmo a sua própria punição que, na verdade, o livro dos Provérbios já definiu como "uma cárie nos ossos" (Pr 14,30).

A inveja, portanto, tem como fonte primeira a comparação. Não comparar-se a ninguém é o primeiro passo para dominar o sentimento de inveja, que sempre supõe que o outro seja ou tenha menos do que nós.

Basta, muitas vezes, que o outro tenha menos. A inveja vem acompanhada do lamento, do arrependimento, nesse caso, porque “suportamos o cansaço e o calor o dia inteiro”, pelo fato de ter-nos dedicado à Vinha de Deus, de ter tido que amar desde a “primeira hora”.

Ao contrário, se olhamos para o operário da última hora com bondade, se o vemos como um amigo, não como um rival, se o olharmos como nosso irmão, não como um adversário, então, conseguiremos também nos alegrar com o pagamento integral do seu salário. Então, faremos festa com o nosso irmão e nos sentiremos mais ricos.

Trata-se, na verdade, de fundamentar os relacionamentos na bondade, tão difícil de encontrar nos dias de hoje, quando somos “treinados” para competir e ser melhores do que os outros sempre e em tudo!

Infelizmente, também em nossa vida comunitária onde, às vezes, a inveja e a fofoca – como disse muitas vezes o Papa Francisco – são males que ferem a comunidade e escandalizam o mundo.

Se cremos ser trabalhadores incansáveis da primeira hora, “cristãos exemplares”, que dão a Deus o seu esforço e o seu cansaço, que esperam a recompensa, então, estamos totalmente distantes e enganados sobre a bondade de Deus.

Mas, se, com humildade e com verdade, nos colocamos entre os últimos operários, entre os “servos inúteis”, ao lado dos pecadores, de Maria Madalena e do ladrão arrependido na última hora, se agirmos não por meritocracia, mas pela bondade de Deus, então a parábola nos revela o segredo da esperança: Deus é bom!

Trata-se, exatamente, do que experimentou, um dia, o próprio evangelista Mateus, o único a contar esta parábola e cuja festa celebramos no dia 21 de setembro, talvez, porque, não obstante o seu pecado, foi tocado pessoalmente pelo convite de Jesus para seguí-Lo.

É isso que Paulo experimentou, de tal modo que chega a dizer aos cristãos filipenses: “para mim, o viver é Cristo e o morrer é lucro”.

Então, é como se Jesus dissesse: “não gostas, não aceitas que eu seja bom?” Nossa resposta poderia ser: não, Senhor, eu quero sim, que tu sejas bom, porque o operário da última hora agora sou eu mesmo, às vezes, “preguiçoso”, às vezes necessitado. Não reclamo que estejas sendo bom, porque muitas vezes, não tenho forças para suportar “o peso da jornada de trabalho e o calor”.

Vinde, Senhor, ao meu encontro, mesmo que seja tarde. Aceito que sejas bom. Fico feliz em ter um Deus assim, que continua a “bater” nas portas estreitas do meu coração fariseu, contra a pobreza da minha alma, para que se torne, finalmente, rica do teu amor.

Ajudai-me, Senhor, a redescobrir que o verdadeiro “lucro” é viver de Ti, morrer por Ti e que a alegria e a recompensa de trabalhar na tua Vinha, desde manhã, é impagável!