"Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida"

O Deus de Jesus é um Deus que pede para ser acolhido para fundir-se com a pessoa, para dilatar a sua capacidade de amar. 
FILIPE

Comentário de pe. Alberto Maggi, OSM
Tradução e adaptação: Frei Alfredo Francisco de Souza, SIA.

 

Jo 14,1-12 - Naquele tempo, disse Jesus a seus discípulos: ”Não se perturbe o vosso coração. Tendes fé em Deus, tende fé em mim também. Na casa de meu Pai há muitas moradas. Se assim não fosse, eu vos teria dito. Vou preparar um lugar para vós e, quando eu tiver ido preparar-vos um lugar, voltarei e vos levarei comigo, a fim de que onde eu estiver estejais também vós. E, para onde eu vou, vós conheceis o caminho”. Tomé disse a Jesus: “Senhor, nós não sabemos para onde vais. Como podemos conhecer o caminho?” Jesus respondeu: “Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida. Ninguém vai ao Pai senão por mim. Se vós me conhecêsseis, conheceríeis também o meu Pai. E desde agora o conheceis e o vistes”. Disse Felipe: “Senhor, mostra-nos o Pai, isso nos basta!” Jesus respondeu: “Há tanto tempo estou convosco, e não me conheces, Felipe? Quem me viu, viu o Pai. Como é que tu dizes: ‘Mostra-nos o Pai’? 10Não acreditas que eu estou no Pai e o Pai está em mim? As palavras que eu vos digo, não as digo por mim mesmo, mas é o Pai, que, permanecendo em mim, realiza as suas obras. Acreditai-me: eu estou no Pai e o Pai está em mim. Acreditai, ao menos, por causa destas mesmas obras. Em verdade, em verdade vos digo, quem acredita em mim fará as obras que eu faço, e fará ainda maiores do que estas. Pois eu vou para o Pai”.

 

No Evangelho deste Quinto Domingo da Páscoa estamos diante dos últimos momentos de Jesus com os Seus discípulos. Jesus pretende tranquilizá-los e fazê-los compreender o seguinte paradoxo: a Sua morte não será uma perda para eles, mas um ganho; a Sua morte não será uma ausência, mas uma presença ainda mais intensa.

Portanto, Jesus, que havia anunciado a traição de Pedro aos discípulos que, por sua vez, ficam perturbados, e sobre os quais está para se abater uma terrível “tempestade”, lhes assegura que Deus está com Ele. É por isso que Jesus disse: “Tende fé em Deus e tende fé em mim também”. Em seguida, Jesus garante o efeito da Sua partida e diz que “na casa do meu Pai há muitas moradas”. É necessário compreender bem este versículo à luz do versículo 23, quando Jesus dirá: “Se alguém me ama observará a minha Palavra e o meu Pai o amará, e nós viremos e faremos nele a nossa morada”.

Aqui não se trata de uma morada junto do Pai, mas do Pai que vem morar entre os homens. Esta é a novidade. Aliás, a grande novidade proposta por Jesus é que não haja mais um santuário onde Deus se manifesta, mas em cada pessoa que O acolhe é que Deus se manifesta. Portanto, o Deus de Jesus é um Deus que pede para ser acolhido para fundir-se com a pessoa, para dilatar a sua capacidade de amar. Esta será a Sua morada.

Mas, por que Jesus fala de “muitas moradas”? Certamente, porque, sendo Deus o amor, não pode se exprimir e manifestar em uma única forma, mas em múltiplas formas, do mesmo jeito que são múltiplas a natureza dos homens, bem como as suas mais variadas situações. Depois disso, Jesus continua a tranquilizá-los dizendo que onde Ele estiver eles também estarão, isto é, na esfera da dimensão divina, na esfera do amor.

Neste ponto Jesus é interrompido por um dos discípulos. Tomé, que pergunta literalmente: “Não sabemos para onde te encaminhas”. Trata-se de um verbo que indica um caminho sem volta. Ele não compreende como a morte pode ter aspectos positivos. E Jesus responde com uma afirmação solene, importante: “Eu sou”. Portanto, Jesus reivindica a condição divina, “o caminho”, isto é, um caminho em direção a algo, caminho que conduz à “verdade”. Jesus não afirma “ter” a verdade. Não diz algo como: “eu tenho a verdade ou eu possuo a verdade”, mas diz “Eu sou a verdade”.

Tampouco pede aos discípulos para terem a verdade com eles, para possuí-la, mas para serem a verdade. A diferença é grande, pois quem tem a verdade, pelo simples fato de possuí-la, se contenta e se satisfaz com o fato de poder julgar e condenar quem não pensa como ele.

“Ser” a verdade significa estar inserido no mesmo dinamismo do amor de Deus que vê o bem do homem como valor absoluto. “Ser” a verdade significa não afastar-se de ninguém por nenhum motivo, mas estar ao lado de todos num relacionamento de amor que se transforma em serviço. A verdade é um dinamismo divino que não pode se exprimir através de fórmulas doutrinais, mas somente através de uma oferta de amor e de comunicação de obras de amor. Então, assim, existirá “a vida”!

Quem segue Jesus neste caminho e, como Ele, é verdade, chega à vida indestrutível, que é plenitude da vida. Então, Jesus diz aos discípulos: Se vós me conhecêsseis, conheceríeis também o meu Pai. Estranhamente Jesus não usa “o conhecereis (o Pai) no futuro, mas afirma: “Quem me viu, viu o Pai”. A expressão se apresenta no aspecto verbal do perfeito no original em grego, é uma ação concluída, perfeita, terminada.

Onde os discípulos viram e conheceram o Pai? No lava-pés! Jesus, que é a manifestação visível de Deus, mostrou quem Deus é: amor que se faz serviço. Então, quanto mais autêntica for a adesão a Jesus, fazendo da própria vida amor e serviço aos outros, maior será o conhecimento do Pai.

Outro discípulo, desta vez, Filipe, todavia demonstra não compreender como Deus pode se manifestar em Jesus e replica: “Mostra-nos o Pai e isso nos basta”. E eis, então, a importante revelação de Jesus: “Há tanto tempo estou convosco, e não me conheces, Felipe? Quem me viu, viu o Pai”.

No término do prólogo deste Evangelho, João havia feito uma importante declaração: “Ninguém jamais viu a Deus: o Filho único, que está voltado para o seio do Pai, este o deu a conhecer” (Jo 1,18). O que significa isso? Significa não que Jesus seja igual a Deus, mas que Deus é igual a Jesus. O evangelista faz o convite a não manter o foco no pensamento sobre Deus e seus mistérios, ou sobre o conhecimento de Deus, mas a centralizar o foco em Jesus, pois tudo o que Jesus faz e diz, tudo isso é Deus.

Portanto, todas as ideias, as imagens, os pensamentos, os conhecimentos que alguém tem a respeito de Deus, que não se fundam ou não se encontram na pessoa de Jesus, devem ser eliminados, porque ou são incompletos ou falsos. Jesus é muito claro: “quem me viu, viu o Pai”. E quem é este Pai que se manifesta em Jesus? É amor que se faz serviço, como vimos no lava-pés.

Diante da incredulidade dos discípulos, Jesus lhes diz que, se não quiserem crer por causa das Suas palavras, que creiam, ao menos, por causa das Suas obras. As obras de Jesus – que se traduzem em ações com as quais Ele comunica e enriquece a vida dos outros – são o único critério de credibilidade.

O final é expresso de maneira solene, com o “Amém, Amém”, isto é, “em verdade, em verdade vos digo: quem crê em mim fará as obras que eu faço, e fará ainda maiores do que estas. Pois eu vou para o Pai”.

Mas, afinal, o que é preciso fazer para compreender as maiores ações (obras) de Jesus? Jesus não pôde responder a todas as necessidades da humanidade. É na comunidade dos discípulos que Ele age e apresenta como único valor absoluto da própria existência – único e sagrado – o bem do homem. Uma comunidade que se põe neste dinamismo do “ser verdade”, portanto, não de ter uma verdade para julgar os outros, mas de ser verdade para aproximar-se de todos, está é uma comunidade onde a ação divina crescerá e será medida transbordante em favor dos outros. Jesus diz: “Tudo isso acontecerá (será possível) porque eu vou para o Pai”, porque Ele colabora com eles. Portanto, Jesus assegura que a Sua morte não será uma ausência, mas uma presença ainda mais intensa e vivificante.