HOMILIA – Tríduo Pascal (Ano A)

Os cristãos orientais chamam a Semana Santa de “Grande Semana”. Sim, é a maior de todas as semanas da fé, porque nela celebramos o grande sentido de nossa vida, o maior de todos os sentidos.
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Os cristãos orientais chamam a Semana Santa de “Grande Semana”. Sim, é a maior de todas as semanas da fé, porque nela celebramos o grande sentido de nossa vida, o maior de todos os sentidos.

Mas, para celebrar assim, é preciso saber fazer “memória”. Celebrar o Tríduo Pascal está longe de ser somente lembrar-se e fazer um teatro da Santa Ceia, do Lava-pés, ou com uma encenação de todo sofrimento e da morte de Jesus, ou soltar fogos de artifício para comemorar a ressurreição do Senhor. Não. Fazer memória é mergulhar no sentido mais profundo daqueles eventos (é a isso que chamamos de “Mistério”), compreender suas causas, consequências e efeitos para, então, experimentar as mesmas causas, consequências e efeitos HOJE, na minha vida. É isso que a tradição judaica chamou de “memória”. É isso também que a Liturgia cristã passou a chamar de “memória”. Sem esse processo transformador, tudo não passará de uma bela encenação teatral.

A primeira celebração do Tríduo Pascal é na Quinta-feira Santa: a solene missa da Instituição da Eucaristia, do sacerdócio ministerial e do mandamento novo. É nessa missa também em que está inserido o gesto profético do Lava-pés. Na mesa daquela ceia ritual, sob os símbolos do pão e do vinho, Jesus se oferece ao Pai. Não são mais pão e vinho, são seu corpo e sangue entregues como comida e bebida, diz ele, partilha na mesa, oferta generosa, numa grande Ação de Graças: eis o que significa Eucaristia. Jesus ensina aos seus discípulos, que recebem a missão de ministros daquela memória, que o amor é a única experiência capaz de dar sentido pleno à vida e a tal missão. E o amor, para ele, não é só uma palavra, um sentimento, mas é atitude concreta, com suas raízes no serviço. Aprendemos isso vendo o gesto de nosso Mestre que não veio para ser servido, mas para ser servir, que se ajoelha e lava os pés de seus discípulos. (cf. Jo 13, 4-5) A COMUNHÃO na mesa eucarística leva a uma necessária PARTICIPAÇÃO. Comungar sem participar desse projeto é apenas um gesto ritual. Participar sem comungar dessa mesa é estar privado da experiência transformadora do Mistério.

A segunda celebração do Tríduo é a Liturgia da Sexta-Feira Santa. Temos diante dos olhos e do coração o mistério da morte de Jesus e adoramos a Cruz. “Está consumado!”. (Jo 19, 30) Sim, tudo está consumado, todas as promessas foram cumpridas. O sonho de Deus para o homem provou-se possível na carne humana. Não é um ideal de fantasias e utopias: amar de verdade é humano, além de divino. Vemos ali, dependurado na cruz, um homem de verdade, igual a mim e a você. A vida que ele vive é a mesma vida que eu e você vivemos. A morte que ele morre é a mesma morte que eu e você morreremos. Dessa afirmação de fé depende nossa compreensão de que ele morreu em nosso lugar, de uma vez por todas. E por que ele teve que morrer? Porque ele passou a vida fazendo escolhas, anúncios e denúncias que o tornaram um criminoso perigoso. Seu projeto é arriscado, pois inclui os que estão excluídos. Ao fazermos essa “memória” devemos nos perguntar se essas opções, anúncios e denúncias são também as nossas. Se não forem, estamos protegidos em nossos cantos de conforto. Se forem, corremos também muitos riscos, como nosso Mestre. Eis um bom critério de avaliação de nossa prática religiosa. Se não nos leva à “cruz” por causa dos outros, parece-se pouco com a prática religiosa de nosso Mestre.

A terceira celebração do Tríduo, na verdade, divide-se em duas missas. A primeira é a Vigília do Sábado Santo. A segunda é a Solene Missa do Domingo de Páscoa.

Na “mãe de todas as Vigílias”, a comunidade tem diante dos olhos e do coração o “repouso” do Cristo Jesus no túmulo. É a experiência da luz tênue da fé que vai preenchendo os espaços escuros, vencendo-os e renovando toda esperança. “Eis a noite”, canta-se no Anúncio de Páscoa. “Aleluia”, canta-se solenemente. É um momento de tomar consciência de que a escuridão da noite, onde tudo parece estar perdido, como aqueles momentos de profunda tristeza e dor de nossas vidas, tudo isso tem um fim glorioso. O fogo que aquece aquela noite, que acende o Círio e nossas velas, quebra a escuridão. Empunhamos na mão a força dessa esperança acesa, ganhamos de herança o que nascerá desse túmulo, cuja pedra tão pesada será retirada. Vigiamos durante aquela madrugada, verdadeiros sentinelas, atentos a esses sinais. O Batismo nas águas daquela noite é a experiência que nos transforma para sempre em discípulos missionários dessa esperança.

Na Missa de Páscoa, segunda parte do terceiro dia do Tríduo, visitamos o túmulo e nos alegramos: está vazio. Mas é um vazio cheio de um sentido novo, de uma história tão humana que somos capazes de nos enxergar nela. A partir da Páscoa, descubro que também o meu túmulo já está vazio. Não está lá o meu destino. Sou herdeiro de um túmulo vazio, de uma vida vitoriosa, aquela do Ressuscitado. A vida que ele viveu é a minha vida. A morte que ele morreu é a minha morte. A ressurreição que ele ressuscitou é a minha ressurreição.

Feliz, santa e provocadora Páscoa da Ressurreição!