Ide até as encruzilhadas dos caminhos e convidai todos os que encontrardes para a festa

A parábola dos vinhateiros assassinos desencadeou a ira dos sacerdotes e dos fariseus que, como escreve o evangelista, compreenderam muito bem que a parábola era dirigida, justamente, a eles.
VESTE

Comentário do pe. Alberto Maggi, OSM
Tradução e adaptação: frei Alfredo Francisco de Souza, SIA

 

Naquele tempo, 1Jesus voltou a falar em parábolas aos sumos sacerdotes e aos anciãos do povo, dizendo: 2“O Reino dos Céus é como a história do rei que preparou a festa de casamento do seu filho. 3E mandou os seus empregados para chamar os convidados para a festa, mas estes não quiseram ir. 4O rei mandou outros empregados, dizendo: ‘Dizei aos convidados: já preparei o banquete, os bois e os animais cevados já foram abatidos e tudo está pronto. Vinde para a festa!’ 5Mas os convidados não deram a menor atenção: um foi para o seu campo, outro para os seus negócios, 6outros agarraram os empregados, bateram neles e os mataram. 7O rei ficou indignado e mandou suas tropas para matar aqueles assassinos e incendiar a cidade deles. 8Em seguida, o rei disse aos empregados: ‘A festa de casamento está pronta, mas os convidados não foram dignos dela. 9Portanto, ide até as encruzilhadas dos caminhos e convidai para a festa todos os que encontrardes’. 10Então os empregados saíram pelos caminhos e reuniram todos os que encontraram, maus e bons. E a sala da festa ficou cheia de convidados. 11Quando o rei entrou para ver os convidados, observou aí um homem que não estava usando traje de festa 12e perguntou-lhe: ‘Amigo, como entraste aqui sem o traje de festa?’ Mas o homem nada respondeu. 13Então o rei disse aos que serviam: ‘Amarrai os pés e as mãos desse homem e jogai-o fora, na escuridão! Aí haverá choro e ranger de dentes’. 14Porque muitos são chamados, e poucos são escolhidos”. Mt 22,1-14

A parábola dos vinhateiros assassinos desencadeou a ira dos sacerdotes e dos fariseus que, como escreve o evangelista, compreenderam muito bem que a parábola era dirigida, justamente, a eles. No entanto, não houve neles nenhum sinal de arrependimento, nem de conversão. Pelo contrário, procuravam capturar e eliminar Jesus.

Diante dessa ameaça Jesus, não só não volta atrás numa palavra do que disse, mas aumenta a “dose” através da terceira e última parábola com a qual polemiza com as autoridades judaicas. Essas três parábolas desenvolvem progressivamente o tema de fundo, que consiste na denúncia contra as autoridades judaicas máximas, que se mostram refratárias e hostis ao desígnio de Deus. Nesta parábola Jesus diz o porquê, isto é, qual é o motivo dessa hostilidade, a saber, as conveniências e os interesses pessoais.

O texto escolhido para a liturgia deste Vigésimo Oitavo Domingo do Tempo Comum é do Evangelho segundo Mateus 22,1-14. Jesus começa a falar aos sumos sacerdotes, aos anciãos e também aos fariseus, através de parábolas. “O Reino dos Céus...”; é importante que Jesus fale de um reino “dos” céus, não de um reino “nos” céus. O que indica que não está se referindo ao além, mas à nova sociedade alternativa que Deus quer inaugurar nesta terra.

“... É semelhante a um rei, que fez uma festa de núpcias para o seu filho”. Mais uma vez voltam à cena um pai e um filho e, desta vez, Jesus compara o reino dos céus, ou seja, o Reino de Deus, à nova alternativa de vida que Ele veio propor, com a festa mais bonita e alegre que existe na vida das pessoas, uma festa de núpcias, um banquete de casamento.

“Ele mandou os seus servos chamarem os convidados para as núpcias, mas esses não quiseram ir”. O rei não desanima, e manda outros servos. Compreendamos, então, o motivo da recusa. É, no mínimo, estranho que se recuse participar de uma festa bonita e jubilosa.

Dizei aos convidados: já preparei o banquete, os bois e os animais cevados já foram abatidos e tudo está pronto. Vinde para as núpcias!”. O rei procura atrai-los com os aspectos mais atraentes da festa: um grande banquete, uma grande refeição. Em tempos de muita fome, de miséria e escassez de alimentos, era costume esperar as núpcias de alguém, para saciar a fome e se fartar num banquete de muitas iguarias. Mas Jesus diz: “... os convidados não deram a menor atenção: um foi para o seu campo, outro para os seus negócios...”. Recusam a proposta do rei em detrimento dos próprios interesses. Jesus desmascara a atitude dos chefes das instituições religiosas, que agem apenas de acordo com as próprias conveniências.

Participar de um jantar de núpcias não é produtivo, não convém. Assim, respondem a uma proposta de vida, com uma proposta de morte.

“... Outros agarraram os empregados, bateram neles e os mataram”. Trata-se da mesma sorte dos profetas enviados pelo Senhor. Portanto, a uma proposta de plenitude de vida, como as núpcias, respondem com a plenitude de morte. “... Então o rei se indignou: e mandou suas tropas”. Aqui Jesus usa a linguagem dos profetas; uma linguagem através de imagens, que anuncia qual será a sorte de Jerusalém, que mata os profetas, que semeou violência e será esmagada pela violência.

“Mandou as suas tropas para matar aqueles assassinos e incendiar a cidade deles”. É a sorte reservada à Jerusalém. Mas eis agora a parte positiva. “Depois disse aos seus servos: A festa de casamento está pronta, mas os convidados não foram dignos dela; então, ide...”. É importante observar aqui a importância da tradução na qual está escrito “até as encruzilhadas dos caminhos...”, mas não se trata de encruzilhadas, na verdade. O termo grego indica o ponto final de um território, onde as estradas romanas terminavam e começavam as trilhas para a zona rural. Era o ponto final do território, mas o início de outros territórios periféricos.

Então, Jesus, nesta parábola, põe na boca do rei essas palavras: ide às periferias. É disso que se trata! As periferias é a “casa” onde vivem os excluídos, os marginalizados. É uma indicação que o evangelista dá aos missionários para saber onde dirigir a sua pregação. Ir às periferias, onde estão as pessoas marginalizadas, os distantes, os rejeitados.

“... E convidai para a festa todos os que encontrardes”. Todos! Portanto, não há mais um povo eleito, mas, sim um chamado, um convite universal.

“... Portanto, ide até as encruzilhadas dos caminhos e convidai para a festa todos os que encontrardes’. Então os empregados saíram pelos caminhos e reuniram todos os que encontraram, maus e bons”. É interessante que Jesus fale primeiro dos maus e depois dos bons. Porque não há um julgamento, mas, o amor de Deus é oferecido a todos. O amor de Deus não é oferecido como uma recompensa pelos méritos das pessoas, mas como um presente, um dom para as suas necessidades.

“E a sala da festa ficou cheia de comensais”. “O rei entrou para ver os comensais e ali observou um homem que não estava usando o traje de festa”. Parece contraditório que o rei tenha mandado chamar de modo improvisado todos os que fossem encontrados pelos caminhos, mas tem uma exigência do traje adequado para a festa. Essa veste, ou traje nupcial, no Novo Testamento e no livro do Apocalipse, indica as boas obras das pessoas. Então, o rei reprova essa pessoa que não está usando a veste, da qual veremos o significado. “... Disse-lhe: amigo, como entraste aqui sem a veste apropriada para a festa de casamento? Ele ficou sem palavras”.  

Qual é o significado? Não basta entrar na sala do banquete. O convite é aberto a todos, mas, uma vez que se entra, é preciso mudar. Portanto, Jesus colocou a conversão como condição para pertencer ao Reino de Deus. A uma sociedade baseada nos valores do ter, da ascensão e do poder, Jesus oferece a possibilidade alternativa de uma sociedade diferente, onde o que se viva seja, na verdade, a partilha e o servir. Essa é a veste apropriada. Portanto, não basta entrar, mas é preciso mudar.

“... Então, o rei ordenou aos servos: Amarrai os pés e as mãos desse homem e jogai-o fora, na escuridão! Aí haverá choro e ranger de dentes”. Com as imagens típicas e a linguagem figurada dos profetas da Escritura, Jesus fala da frustração pela perda de uma oportunidade única na própria vida.

Concluindo, Jesus diz: “Porque muitos são chamados, mas poucos os escolhidos”. Muitos, aqui, então, significa “todos”. Portanto, o amor de Deus é dirigido a todos, mas, infelizmente, poucas pessoas o acolhem e o aceitam em plenitude.