“Não te digo até sete vezes, mas até setenta vezes sete”

Evangelho segundo Mateus apresenta Jesus que indica a necessidade do confronto com o irmão que pecou, que cometeu uma falta grave, e a necessidade de recompor as relações rompidas pela desavença no meio da comunidade.
FREI ALFREDO TEXTO

“NÃO TE DIGO ATÉ SETE VEZES, MAS ATÉ SETENTA VEZES SETE”

Comentário do pe. Alberto Maggi, OSM
Tradução e adaptação: frei Alfredo Francisco de Souza, SIA

Mt 18,21-35 - Naquele tempo, 21Pedro aproximou-se de Jesus e perguntou: “Senhor, quantas vezes devo perdoar, se meu irmão pecar contra mim? Até sete vezes?”22Jesus respondeu: “Não te digo até sete vezes, mas até setenta vezes sete. 23Porque o Reino dos Céus é como um rei que resolveu acertar as contas com seus empregados. 24Quando começou o acerto, levaram-lhe um que lhe devia uma enorme fortuna. 25Como o empregado não tivesse com que pagar, o patrão mandou que fosse vendido como escravo, junto com a mulher e os filhos e tudo o que possuía, para que pagasse a dívida. 26O empregado, porém, caiu aos pés do patrão e, prostrado, suplicava: ‘Dá-me um prazo, e eu te pagarei tudo!’ 27Diante disso, o patrão teve compaixão, soltou o empregado e perdoou-lhe a dívida. 28Ao sair dali, aquele empregado encontrou um de seus companheiros que lhe devia apenas cem moedas. Ele o agarrou e começou a sufocá-lo, dizendo: ‘Paga o que me deves’.  29O companheiro, caindo aos seus pés, suplicava: ‘Dá-me um prazo, e eu te pagarei!’ 30Mas o empregado não quis saber disso. Saiu e mandou jogá-lo na prisão, até que pagasse o que devia. 31Vendo o que havia acontecido, os outros empregados ficaram muito tristes, procuraram o patrão e lhe contaram tudo. 32Então o patrão mandou chamá-lo e lhe disse: ‘Empregado perverso, eu te perdoei toda a tua dívida, porque tu me suplicaste. 33Não devias tu também ter compaixão do teu companheiro, como eu tive compaixão de ti?’ 34O patrão indignou-se e mandou entregar aquele empregado aos torturadores, até que pagasse toda a sua dívida. 35É assim que o meu Pai que está nos céus fará convosco, se cada um não perdoar de coração ao seu irmão”.

Dos quatro evangelistas, Mateus é o que mais se dedica ao tema do perdão. Por isso, o capítulo 18 do Evangelho segundo Mateus apresenta Jesus que indica a necessidade do confronto com o irmão que pecou, que cometeu uma falta grave, e a necessidade de recompor as relações rompidas pela desavença no meio da comunidade.

Se esse irmão se recusar a recompor a unidade perdida, deve ser amado como um publicano ou um pecador, isto é, um amor baseado no “prejuízo” (causado), como o amor ao inimigo. Pedro reage a este ensinamento de Jesus, se aproxima e lhe pergunta:

“Senhor, se o meu irmão...”, portanto trata-se da questão do perdão no interior da comunidade, “... peca contra mim, quantas vezes deverei perdoar-lhe?”

A legislação rabínica concedia o máximo de três vezes para o perdão. Então, Pedro pensa estar superando a legislação mais de duas vezes do que esta estabelece e diz: “Até sete vezes?”.

Portanto, Pedro quer saber sobre as regras precisas, quer saber o limite do perdão. Jesus lhe responde: “Não te digo até sete vezes, mas até setenta vezes sete”.

Na Sua resposta Jesus faz referência a uma famosa expressão contida no livro de Gênesis, de um dos descendentes de Caim, um homem muito belicoso, chamado Lamec, que se vangloriava de ter matado um homem por causa de um único arranhão, ou uma simples ferida, como também de ter matado uma criança por causa de uma contusão (Gn 4,23).

Lamec dizia: “Caim será vingado sete vezes, mas Lamec será vingado setenta e sete vezes”. Portanto, uma vingança ilimitada. A expressão de Lamec se referia à promessa do Senhor, que disse que aquele que matasse Caim iria sofrer a vingança por sete vezes.  A referência, através destas alusões, com relação ao primeiro fratricídio da Bíblia, junto ao fato de que o ensinamento é dirigido à comunidade dos discípulos, onde são irmãos entre si, nos faz compreender que a falta de perdão conduz os membros da comunidade à morte. Esta é a mensagem que o evangelista quer nos transmitir.

É necessário especificar, então que, com a expressão setenta vezes sete, Jesus não pretende indicar apenas a quantidade do perdão, isto é, ilimitado, mas principalmente a sua qualidade, ou seja, incondicional.

Em seguida, Jesus apresenta uma parábola muito eloquente. O Reino dos Céus, isto é, a nova realidade que Ele veio propor, é semelhante a um rei que veio acertar contas com os seus servos. É o rei, portanto, que toma a iniciativa. Observemos que o rei pretende perdoar, e até mesmo esquecer as contas.

No Oriente, o termo “servo” indica qualquer um que seja dependente do rei. Aqui se trata de uma realidade de altos funcionários, haja vista as altas somas que gerenciam.

Quando começou o acerto, levaram-lhe um que lhe devia uma enorme fortuna”. Trata-se da soma de 10 mil talentos, uma cifra desproporcional, absurda. De fato, um talento equivalia a 26 - 36 quilos de ouro. Logo, dez mil talentos correspondem a cerca de trezentos mil quilos de ouro, portanto, uma cifra incalculável, impossível de restituir.

De fato, Como o empregado não tivesse com que pagar, o patrão mandou...”. Não se trata de uma maldade do patrão para com o seu funcionário, mas era o direito e lei da época. “... Que fosse vendido como escravo, junto com a mulher e os filhos e tudo o que possuía, para que pagasse a dívida”.

Notemos que o rei toma a iniciativa, sobretudo porque vê que este não tem como restituir o que deve e se volta à práxis normal, isto é, o que a justiça mandava fazer, nesse caso. No entanto, o servo suplica ao seu rei e lhe diz:

“Tenha paciência comigo e te restituirei tudo”. Na verdade, isso é impossível! Este servo sabe que não é possível restituir tudo porque, pelos cálculos, seriam necessários mais de cento e sessenta e quatro mil anos de trabalho para acumular uma quantia dessas.

Portanto, o servo sabe que não pode pagar, mas pede paciência ao senhor. “O patrão teve compaixão do seu servo”. Este verbo uado referindo-se à atitude de Deus no Antigo Testamento e de Jesus no Novo Testamento indica uma ação de misericórdia visceral, da parte de Deus pelos Seus filhos e de Jesus pelos Seus irmãos.

“Deixou-o ir e lhe perdoou a divida”, isto é, esqueceu a dívida. Pois bem, “... logo que saiu dali, aquele empregado encontrou um dos seus companheiros que lhe devia cem dinheiros (moedas)”, ou seja, uma quantia irrisória. Um dinheiro (ou uma moeda) era o pagamento por um dia de trabalho de um operário. Lembremos-nos do pagamento aos trabalhadores da vinha.

Então, cem dinheiros ou cem moedas são cerca de três meses de trabalho. Logo, trata-se de uma quantia possível de ser restituída. Este funcionário, de quem foi perdoada uma divida equivalente à soma de trezentos mil quilos de ouro, correspondentes à cerca de cento e sessenta e quatro mil anos de trabalho, “... o pegou pelo pescoço e o sufocou”.

Ele, que teve a vida restituída pelo seu senhor, tira a vida do outro e lhe pede que pague, de qualquer forma, tudo o que lhe deve. Então, este seu companheiro se dirige a ele exatamente como o funcionário se dirigiu ao rei: “Tenha paciência e eu te pagarei”. Dá-me um prazo, suplicou o companheiro!

Observemos que, neste caso, é possível restituir porque, diferente do funcionário que devia ao rei, não se trata de uma quantia exorbitante, incomensuravelmente alta.

“Mas ele não quis (saber disso), foi e mandou jogá-lo na prisão”. Ao invés da misericórdia que foi usada para com ele, o empregado usa tão somente a lei.

“Vendo o que havia acontecido, os outros empregados foram, muito tristes, e contaram tudo o que havia acontecido ao patrão. Então, o patrão fez chamar aquele homem e lhe disse: “Servo maligno”. Este termo é importante, porque é o mesmo termo que se encontra na oração do Pai nosso, quando Jesus convida a pedir: “livrai-nos do maligno”, que é o mesmo usado na versão que rezamos em português, “livrai-nos do mal”.

Maligno, então, é alguém incapaz de perdoar. E quem é incapaz de perdoar semeia a morte no meio da comunidade.

“Servo maligno, eu te perdoei toda a tua dívida porque tu me suplicaste. Não devias também tu ter piedade do teu companheiro, assim como eu tive piedade de ti? Revoltado, o patrão o entregou nas mãos dos algozes, até que pagasse tudo o que devia”, isto é, para sempre. Porque, de acordo com os cálculos, levaria cerca de cento e sessenta e quatro mil anos de trabalho e, portanto, jamais conseguirá pagar e ficará, então, entregue aos algozes, para sempre.

Jesus acrescenta: “Assim também o meu Pai celeste fará convosco se não defenderdes” – não é perdoar, mas defender, no sentido de cancelar algo impagável, a iniciativa é do credor – “de coração, cada um, ao próprio irmão”.

Mas, o que significa a referência ao coração? É o fruto da nova mentalidade em que o que prevalece não é mais a lei, mas a misericórdia. Em referência ao que Jesus havia dito antes sobre “ligar e desligar”, o significado é o seguinte: o perdão do Pai para com os homens permanece “ligado”, poderíamos dizer, condicionado, não liberado, na medida em que não se “desligue”, ou seja, enquanto não se solte ou libere o perdão aos irmãos.

Deus já nos perdoou, mas este perdão se torna operativo e eficaz somente quando se transforma em perdão no confronto e no relacionamento com os outros.