O Menino crescia cheio de Sabedoria

Simeão anuncia que o amor de Deus é universal, não mais para um único povo, o povo eleito, mas é para toda a humanidade
SIMEÃO1

Comentário do pe. Alberto Maggi, OSM
Tradução e adaptação: frei Alfredo Francisco de Souza, SIA

Lc 2,22-40
22Quando se completaram os dias para a purificação da mãe e do filho, conforme a Lei de Moisés, Maria e José levaram Jesus a Jerusalém, a fim de apresentá-lo ao Senhor. 23Conforme está escrito na Lei do Senhor: “Todo primogênito do sexo masculino deve ser consagrado ao Senhor”. 24Foram também oferecer o sacrifício — um par de rolas ou dois pombinhos — como está ordenado na Lei do Senhor. 25Em Jerusalém, havia um homem chamado Simeão, o qual era justo e piedoso, e esperava a consolação do povo de Israel. O Espírito Santo estava com ele 26e lhe havia anunciado que não morreria antes de ver o Messias que vem do Senhor. 27Movido pelo Espírito, Simeão foi ao Templo. Quando os pais trouxeram o menino Jesus para cumprir o que a Lei ordenava, 28Simeão tomou o menino nos braços e bendisse a Deus: 29“Agora, Senhor, conforme a tua promessa, podes deixar teu servo partir em paz; 30porque meu olhos viram a tua salvação, 31que preparaste diante de todos os povos: 32luz para iluminar as nações e glória do teu povo Israel”. 33O pai e a mãe de Jesus estavam admirados com o que diziam a respeito dele. 34Simeão os abençoou e disse a Maria, a mãe de Jesus: “Este menino vai ser causa tanto de queda como de reerguimento para muitos em Israel. Ele será um sinal de contradição. 35Assim serão revelados os pensamentos de muitos corações. Quanto a ti, uma espada te transpassará a alma”. 36Havia também uma profetisa, chamada Ana, filha de Fanuel, da tribo de Aser. Era de idade muito avançada; quando jovem, tinha sido casada e vivera sete anos com o marido. 37Depois ficara viúva, e agora já estava com oitenta e quatro anos. Não saía do Templo, dia e noite servindo a Deus com jejuns e orações. 38Ana chegou nesse momento e pôs-se a louvar a Deus e a falar do menino a todos os que esperavam a libertação de Jerusalém. 39Depois de cumprirem tudo, conforme a Lei do Senhor, voltaram à Galileia, para Nazaré, sua cidade. 40O menino crescia e tornava-se forte, cheio de sabedoria; e a graça de Deus estava com ele.

 

Não obstante a extraordinária experiência do Espírito Santo que os pais de Jesus tiveram, especialmente a Sua mãe, ainda estão muito ligados à tradição do povo, que vê o relacionamento com Deus baseado na observância e na obediência da lei.

Neste episódio do Evangelho segundo Lucas, o autor pretende antecipar e representar a dificuldade que Jesus terá ao propor ao Seu povo, uma relação diferente com Deus, não mais baseada na obediência às Suas leis, mas no acolhimento do Seu Espírito, do Seu amor. É por isso que, neste episódio conhecido como a apresentação de Jesus no Templo, Lucas apresenta dois grupos contrários.

O primeiro, representado pelos pais de Jesus, que levam o menino para cumprir um rito desnecessário, porque pretendem fazer filho de Abraão, Aquele que já é Filho de Deus. O segundo representa o homem do Espírito, Simeão, voltado a impedir o ritual desnecessário.

Os pais vão ao templo para a purificação da mãe – porque o nascimento de um menino tornava a mãe impura e, portanto, a mulher tinha que se purificar através de uma oferta, e Maria e José levam a oferta que os mais pobres levavam: um par de pombinhos – e sobretudo, para pagar o resgate do filho.

Foram pagar o resgate porque todo o primogênito macho que nascia, de fato, o Senhor o queria para si; era “propriedade” de Deus. Se os pais o quisessem para si, deveriam pagar o equivalente a vinte jornadas de trabalho, isto é, cinco siclos, neste caso, correspondente a cinco moedas de prata.

Enquanto Maria e José se dirigem com o menino para o Templo para cumprir esse rito, Lucas nos apresenta, surpreendentemente, expressando o seu maravilhamento: “Eis que em Jerusalém havia um homem chamado Simeão”.

Simeão, que significa “o Senhor me escutou”, é o homem do Espírito, que tenta impedir o rito desnecessário. Então, toma o menino nos braços, enquanto os pais pretendiam cumprir todos os detalhes da lei, e pronuncia uma profecia que deixa os pais desconcertados. Diz que Jesus será “... glória de teu povo, Israel”, e isso, Maria e José já sabiam, pois era “tarefa’ do Messias, do Filho de Deus. Mas, a novidade é quando diz que Ele será,”... Luz para iluminar as nações”, isto é, aos povos pagãos.

Portanto, Simeão anuncia que o amor de Deus é universal, não mais para um único povo, o povo eleito, mas é para toda a humanidade. Portanto, os inimigos de Israel, os pagãos, não deveriam mais ser, como eles acreditavam, mediante o que a tradição ensinava, dominados, mas acolhidos como irmãos.

Depois, Simeão dá uma bênção à Maria, que termina de maneira bastante misteriosa. Simeão proclama que Jesus será o que depois Lucas, mais adiante, apresentará como uma “pedra” que pode ser angular, que serve para a construção, ou uma pedra que faz as pessoas tropeçarem e caírem. Diz a respeito de Jesus: “... Ele está aqui para ser causa de queda e de ressurreição para muitos em Israel”, e como sinal de contradição. E continua, voltando-se para Maria, a mãe de Jesus: “... e quanto a ti, uma espada de atravessará a alma”, isto é, a tua vida. Mas, qual é o significado da espada que penetrará e atravessará toda a vida de Maria?

A espada, seja no Antigo ou no Novo Testamento, é símbolo da Palavra de Deus, que “é eficaz como uma espada”, como dirá o autor da carta aos Hebreus, que “A palavra de Deus é como uma espada que atinge as articulações e medula e o ponto de divisão da alma e do espírito".

Portanto, Simeão anuncia à Maria, que representa o povo de Israel, que para ela, a Palavra deste Filho será como uma espada que a forçará a fazer escolhas, e escolhas muito dolorosas.

De fato, no próximo episódio que o evangelista apresentará, referente à perda e ao encontro de Jesus no Templo, fará com que as primeiras e únicas palavras que Jesus dirigirá à Sua mãe, sejam palavras de reprovação.

O caminho de Maria ainda é longo. Ela deverá compreender que, de mãe do Filho, deverá se transformar em discípula. Um caminho longo e doloroso, como uma espada que penetra a alma.