Os Publicanos e as Prostitutas vos procederão no Reino de Deus

Os chefes religiosos estão furiosos com Jesus, por ter declarado que o templo é um covil de ladrões, chamando-os, indiretamente, de “bandidos”, e se posicionam contra Jesus, perguntando com qual autoridade Ele fazia isso.
2 filhos

Comentário do pe. Alberto Maggi, OSM
Tradução e adaptação: frei Alfredo Francisco de Souza, SIA

Mt 21,28-32  Naquele tempo, Jesus disse aos sacerdotes e anciãos do povo: 28“Que vos parece? Um homem tinha dois filhos. Dirigindo-se ao primeiro, ele disse: ‘Filho, vai trabalhar hoje na vinha! ’ 29O filho respondeu: ‘Não quero’. Mas depois mudou de opinião e foi. 30O pai dirigiu-se ao outro filho e disse a mesma coisa. Este respondeu: ‘Sim, senhor, eu vou’. Mas não foi. 31Qual dos dois fez a vontade do pai?” Os sumos sacerdotes e os anciãos do povo responderam: “O primeiro”. Então Jesus lhes disse: “Em verdade vos digo que os cobradores de impostos e as prostitutas vos precedem no Reino de Deus. 32Porque João veio até vós, num caminho de justiça, e vós não acreditastes nele. Ao contrário, os cobradores de impostos e as prostitutas creram nele. Vós, porém, mesmo vendo isso, não vos arrependestes para crer nele”.

Para uma melhor compreensão do texto do Evangelho segundo Mateus, escolhido para a liturgia do Vigésimo Sexto Domingo do Tempo Comum, recordemos alguns episódios anteriores a ele, que causaram a reação de Jesus, através da parábola em questão.

Os chefes religiosos estão furiosos com Jesus, por ter declarado que o templo é um covil de ladrões, chamando-os, indiretamente, de “bandidos”, e se posicionam contra Jesus, perguntando com qual autoridade Ele fazia isso (Mt 21,12-16).

Jesus não responde. Apenas diz: “Primeiro, dizei-me vós, com que autoridade agia João, o Batista? O seu ensinamento vinha do céu”, isto é, de Deus, “ou dos homens?”. As autoridades não respondem. Não respondem porque o que determina o comportamento das autoridades religiosas tem como fundamento o seu único deus, que regula a sua existência, isto é, a conveniência. Tudo o que fazem é por conveniência.

É com base na conveniência que raciocinam: se dissessem “do céu”, então diriam: “E por que não acreditastes nele?”. Portanto, confessam não ter acreditado no enviado de Deus. Se dissessem: “da terra”, ficariam em “maus lençóis” porque o povo tem João como um profeta. Portanto, não respondem (Mt 21,23-27). Então, é a esses que Jesus dirige a parábola do Evangelho segundo Mateus 21,28-32. A parábola de Jesus é dirigida às máximas autoridades religiosas.  

“Que vos parece? Um homem tinha dois filhos. Dirigindo-se ao primeiro, disse-lhe: Filho...”. O termo grego usado pelo evangelista é cheio de ternura. Poderíamos traduzi-lo melhor por: “Meu filhinho”.

É o mesmo verbo do qual nasce a palavra “parir”, “dar à luz” e, portanto, é um verbo de grande ternura materna.

“Vai trabalhar hoje na minha vinha”. A vinha, como sabemos, é imagem do povo de Israel.

“O filho respondeu: Não tenho vontade - (não quero) - mas depois se arrependeu e foi”. Portanto, há um primeiro filho que responde não ao convite do Senhor, mas depois se arrepende.

“O pai se dirigiu ao segundo e disse a mesma coisa”. “E ele respondeu: Sim, senhor”. Nunca confie em quem diz de imediato, “sim, Senhor”. Este segundo filho não tem um relacionamento com o pai. Por isso, não disse “sim, pai”, mas, “sim, senhor”. Trata-se de um relacionamento com um senhor ao qual se deve obedecer, apenas.

“Mas não foi”. Nas palavras de Jesus está contido o eco da denúncia no profeta Isaías: “Este povo me honra com os lábios, mas o seu coração está longe de mim”.

O segundo filho diz: “Sim, senhor”, mas não tem nenhuma intenção de colaborar na ação deste senhor, ao qual se dirige para pedir tanto favor.

Jesus havia dito: “Nem todo aquele que me diz Senhor, Senhor entrará no Reino de Deus...”, portanto, essas pessoas, como já se sabe, estão excluídas da realidade de Deus.

Jesus, então, pergunta às autoridades religiosas: “Qual dos dois fez a vontade do pai?”. Agora sim, aparece o termo “Pai”.

Na verdade, teria sido melhor que também dessa vez tivessem ficado calados, que não tivessem respondido. Mas, em vez disso, “Responderam: o primeiro”.

“Então, Jesus lhes disse: em verdade...”, trata-se de uma afirmação solene, importante: “... Eu vos digo...”. Nesse ponto Jesus contrapõe os sumos sacerdotes e anciãos aos “íntimos” de Deus, isto é, os publicanos e as prostitutas, os últimos da sociedade, os excluídos e distantes de Deus, de acordo com a mentalidade religiosa da época.

os cobradores de impostos e as prostitutas vos precedem no Reino de Deus”. A construção do verbo grego, traduzido como “preceder” ou “passar na frente”, não indica precedência. Não significa que eles – publicanos e prostitutas - vão à frente e depois os demais – sacerdotes e anciãos - vão atrás, mas indica exclusão. Significa dizer que os cobradores de impostos e as prostitutas tomaram o seu lugar. Aqueles que eles pensam serem os culpados pelo atraso da chegada do Reino de Deus, já estão no Reino e eles, por sua vez, ficaram de fora.

Jesus, então, conclui: “João”, voltando ao argumento do Batista, veio até vós, num caminho de justiça, e vós não acreditastes nele”. Na verdade, as autoridades religiosas jamais acreditaram num enviado de Deus. Nunca! São completamente refratárias, isto é, indiferentes, insensíveis aos anúncios divinos.

“Os publicanos e as prostitutas”, ou seja, as categorias consideradas mais distantes de Deus; pessoas das quais se acreditava ser a culpa pelo “atraso” da vinda do Reino, são recolocadas por causa da sua capacidade de conversão.

Vós, porém, ao contrário, mesmo vendo isso, não estais arrependidos...”. O verbo arrepender-se aparece três vezes no Evangelho segundo Mateus”. Aqui, nesta parábola do filho que se arrepende e depois vai trabalhar na vinha do pai, no caso de Judas, o traidor, que se arrepende, mas no caso d as autoridades, não! As autoridades não se arrependerão jamais. Judas se arrependeu, mas as autoridades nunca se arrependerão, porque o que determina o seu comportamento é a conveniência, o único deus em que acreditam.

“... Para crer nele”. O evangelista nos faz compreender que as autoridades religiosas são completamente refratárias à boa notícia de Jesus, porque deveriam perder o seu poder, os seus privilégios e o seu prestígio. E a Boa Notícia de Jesus é um convite a ser expressão de amor que se faz serviço para os outros.