Quarto Domingo do Advento

Não tenhas medo, Maria, porque encontraste graça diante de Deus. Eis que conceberás e darás à luz um filho, a quem porás o nome de Jesus. 
MARIA

“Eis que conceberás e darás à luz um filho”

Comentário do pe. Alberto Maggi, OSM
Tradução e adaptação: frei Alfredo Francisco de Souza, SIA

Lc 1,26-38
Naquele tempo, 26o anjo Gabriel foi enviado por Deus a uma cidade da Galileia, chamada Nazaré, 27a uma virgem, prometida em casamento a um homem chamado José. Ele era descendente de Davi e o nome da virgem era Maria. 28O anjo entrou onde ela estava e disse: “Alegra-te, cheia de graça, o Senhor está contigo!” 29Maria ficou perturbada com essas palavras e começou a pensar qual seria o significado da saudação. 30O anjo, então, disse-lhe: “Não tenhas medo, Maria, porque encontraste graça diante de Deus. 31Eis que conceberás e darás à luz um filho, a quem porás o nome de Jesus. 32Ele será grande, será chamado Filho do Altíssimo, e o Senhor Deus lhe dará o trono de seu pai Davi. 33Ele reinará para sempre sobre os descendentes de Jacó, e o seu reino não terá fim”. 34Maria perguntou ao anjo: “Como acontecerá isso, se eu não conheço homem algum?” 35O anjo respondeu: “O Espírito virá sobre ti, e o poder do Altíssimo te cobrirá com sua sombra. Por isso, o menino que vai nascer será chamado Santo, Filho de Deus. 36Também Isabel, tua parenta, concebeu um filho na velhice. Este já é o sexto mês daquela que era considerada estéril, 37porque para Deus nada é impossível”. 38Maria, então, disse: “Eis aqui a serva do Senhor; faça-se em mim segundo a tua palavra!” E o anjo retirou-se.

 

“Para Deus nada é impossível”. É com estas palavras que se encerra o episódio da anunciação do Anjo Gabriel à Maria. Para que nada seja impossível para Deus é necessário a escuta da Sua Palavra. É preciso confiar nela e depois agir, de acordo com a mesma Palavra.

O evangelista conclui assegurando – que para Deus nada é impossível – o episódio da anunciação, porque, na verdade, o caminho é todo de abertura, uma saída para o novo de Deus.

Na primeira carta aos Coríntios, São Paulo diz que Deus escolheu o que é desprezado, o que é débil aos olhos do mundo, o que nós jamais escolheríamos. Foi isso que Deus fez e que a liturgia deste Quarto Domingo do Advento nos apresenta no Evangelho de Lucas 1,26-38.

“No sexto mês o Anjo Gabriel...”. Gabriel, em hebraico, Gabri-el, significa “a força de Deus”, portanto, é a força da criação que é capaz de vencer qualquer resistência.

“... Foi enviado por Deus a uma cidade da Galileia”. Aqui já encontramos uma “dificuldade”, porque o anjo de Deus não é enviado à região santa da Judeia, que tinha o nome de região fundadora das doze tribos de Israel, Judá, o lugar da presença de Deus, no templo de Jerusalém, mas é enviado a uma região tão desprezada que deve o nome ao profeta Isaías 28,23, no seu livro, que indica este lugar como “o distrito dos Gentios”, quer dizer, dos pagãos, dos incrédulos.

“Distrito”, em hebraico se diz “Ghelil”, daí deriva o nome Galileia. Portanto, é a região desprezada, a região das pessoas que, de acordo com o que se acreditava, nem mesmo poderiam ressuscitar. Trata-se, portanto, de uma região excluída da ação de Deus. E essa cidade da Galileia é “... Chamada de Nazaré”, jamais mencionada no Antigo Testamento, pois é um lugarejo selvagem, habitado por “trogloditas”, que viviam nas cavernas, um tipo muito belicoso.

Flávio Josefo, historiador romano, contemporâneo dos Evangelhos, diz que os galileus são belicosos desde pequenos. Mas, ainda tem mais... “a uma virgem, prometida...”. A indicação que Lucas nos dá é de difícil compreensão para nós, porque os costumes matrimoniais daquela época são muito distantes e diferentes dos nossos.

O matrimônio acontecia em duas etapas. A primeira etapa era chamada de “casamento”, e acontecia no momento em que a moça tinha doze anos e o rapaz tinha dezoito. Depois de um ano acontecia a segunda fase do matrimônio, que era chamada de núpcias.

Portanto, a partir dessa informação temos a certeza de que a menina estava na primeira fase do matrimônio, quando ainda não era possível que os cônjuges vivessem juntos e tivessem relacionamento entre eles. A moça era casada. Portanto, o anjo é enviado a uma mulher.

Deus nunca havia dirigido a Sua palavra a uma mulher. A bíblia afirma que “o pecado veio da mulher, e por sua causa todos morremos”.

“... Em casamento a um homem da casa de Davi, chamado José. A virgem se chamava Maria”. Entre tantos nomes que se poderiam escolher para essa moça que deveria dar a luz Jesus, é escolhido justamente o nome que na Bíblia era considerado como o nome que traz azar. Por quê? É o nome da irmã de Moisés, mulher ambiciosa, castigada e punida severamente por Deus com a lepra. Desde esse momento o nome “Maria" não aparece mais na bíblia.

É mais ou menos como em nosso mundo cristão o nome Judas que, embora seja um belíssimo nome e, além disso, é o nome de um dos apóstolos, mas que ninguém usa para nomear uma criança por causa da traição de Judas a Jesus. Assim, não se colocava o nome “Maria” em nenhuma menina porque recordava uma mulher castigada por Deus. Na Galileia, em Nazaré, uma mulher com esse nome que trazia azar.

“Entrando onde ela estava disse: Alegra-te, cheia de graça”, que não significa uma constatação que o anjo faz das virtudes de Maria, mas “coberta, alcançada com a graça”. Deus não foi atraído pelos méritos de Maria, mas a enche com o Seu amor.

“O Senhor é contigo”. Trata-se de uma expressão com a qual Deus confirmava a Sua presença àqueles que chamava a cumprir suas ações, como por exemplo, Gedeão.

“Ela ficou perturbada com essas palavras e se perguntava que sentido teria uma saudação como esta. O anjo lhe disse: “Não temas, Maria, eis que encontraste graça junto de Deus”. Portanto, é Deus que a enche com o Seu amor.

“Conceberás um filho”, e aqui começam as novidades, que depois amadurecerão ao longo da vida de Jesus e o Seu ensinamento.

“... O darás à luz e lhe porás o chamarás Jesus”. Isso é inédito! Uma mulher não poderia dar o nome ao menino que nasce. Além disso, o nome de um menino recém-nascido deveria ser o mesmo nome do pai. Aqui, ao contrário, é a mulher que é chamada a romper com a tradição, com o passado e abrir-se ao novo. É ela quem deve dar o nome ao menino e não deve chama-lo com o nome do marido, José, como manda a tradição, mas deve chama-lo de Jesus.

O anjo diz que este menino “... será grande e será chamado Filho do Altíssimo; o Senhor Deus lhe dará o trono...”. Portanto, não herdará o trono, mas é uma ação nova. “... De seu pai, o rei Davi, e reinará para sempre sobre a cada de Jacó e o seu reino não terá fim”. Esta é a promessa que o anjo faz à Maria. Maria não se descompõe diante desta novidade e pergunta somente a modalidade, isto é, sobre como isso acontecerá.

“Então Maria disse ao anjo: como acontecerá isso, pois não conheço homem?”, precisamente porque ainda não havia acontecido a segunda etapa do matrimônio, as núpcias, quando começava a convivência.

“O anjo lhe respondeu...”. O evangelista encerra a existência de Maria entre as duas descidas do Espírito Santo: na anunciação e no cenáculo, com o Pentecostes.

“O Espírito Santo descerá sobre ti...”, portanto, existe uma nova criação em Maria, uma nova geração, “... e o poder do Altíssimo te cobrirá com a sua sombra. Por isso, aquele que nascerá será santo e será chamado Filho de Deus”. Trata-se de uma maneira do anjo fazer compreender que aquele que nascerá será o Messias, o enviado por Deus, o libertador do povo. Portanto, o Espírito Santo desce sobre Maria como no momento da criação, quando o que nasce é algo completamente novo.

Mas, por que o anjo, em toda essa mensagem, exclui José? Porque o pai transmitia ao filho não apenas a vida biológica, mas também a tradição religiosa e moral. Então, fica claro que Jesus não seguirá os pais de Israel, mas seguirá o Pai, que é Deus.

O anjo confirma: “E eis que Isabel, tua parenta, na sua velhice concebeu também ela um filho e este é o sexto mês para ela que era considerada estéril: porque para Deus nada é impossível”. As palavras que Deus havia dito a Sara, também idosa, com Abraão que não acreditava na possibilidade de poder trazer um menino ao mundo, o anjo confirma à Maria, “nada é impossível para Deus”.  

A ação de Deus com a Sua força criadora não tem limites, mas, como lembrávamos no início, há necessidade da escuta por parte do homem, depois, é preciso confiar nessa palavra e, por fim, a sua colaboração.

“Então Maria disse: Eis a serva do Senhor...”. Não uma serva, mas “Serva do Senhor”, que era um dos títulos que o povo de Israel tinha. Portanto, Maria, para Lucas, identifica o povo.

“Seja feito em mim segundo a tua palavra. E o anjo retirou-se”. Maria confia completamente no Deus de seus pais. A partir de agora, a espera é a tarefa mais difícil: acolher e aceitar o Deus de seu filho, Jesus.