“Que eu não perca nenhum daqueles que ele me deu, mas os ressuscite no último dia”

O dia de finados não pode ser para nós apenas um dia para lembrar de quem já partiu. Seria muito injusto lembrar-se de alguém que nos amou e que amamos uma vida inteira, apenas uma vez por ano.
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(Liturgia da Solenidade dos Fieis Defuntos)

O dia de finados não pode ser para nós apenas um dia para lembrar de quem já partiu. Seria muito injusto lembrar-se de alguém que nos amou e que amamos uma vida inteira, apenas uma vez por ano.

Se quisermos dar um nome para este dia, que o chamemos, então, de dia da gratidão, já que faz bem ter ocasiões para nos lembrarmos de agradecer.

Hoje Jesus nos reúne e nos fala da vida eterna no Evangelho escolhido para a liturgia, (Jo 6,37-40). No dia primeiro de novembro a Igreja celebra a Solenidade de Todos os Santos, embora no Brasil seja transferido para o domingo seguinte. Trata-se de uma Solenidade que nos convida a voltar o nosso olhar para os santos, os operários e operárias de Deus, na Sua grande obra de salvação.

Hoje, na Solenidade dos Fiéis Defuntos, somos convidados a lembrar dos “nossos santos”: Aqueles que nos amaram, que nos guiaram pelos caminhos da vida, que doaram a sua vida ou mesmo aqueles que doaram a nós, ainda que seja apenas um único momento da sua existência.

Na Solenidade de Todos os Santos festejamos os fieis que já chegaram à plenitude da vida. Hoje, celebramos aqueles que estão a caminho, porque compreendemos, pela fé, que toda a vida é uma grande viagem de peregrinação. Compreendemos também que nessa peregrinação existe um ponto de partida e um ponto de chegada, que dá sentido a tudo o que existe entre os dois extremos, o começo e o fim, isto é, entre a partida e a chegada. Na verdade, trata-se do que dá sentido à vida, que consiste em vida vivida, vida definitiva, vida completa e plena. 

Esta vida “começa” quando o coração pára. É por isso que toda a vida do cristão é como se fosse uma “sala de espera infinita”, que começa quando realizamos o primeiro gesto de amor e continua num crescendo durante toda a existência, enquanto peregrinamos nesta terra. Podemos compará-la à experiência do nascimento, quando damos o nosso primeiro respiro com a ajuda do médico, e depois começamos, então, a viver e respirar de forma autônoma.

A liturgia que celebramos hoje nos convida a contemplar o infinito amor de Deus, que sempre nos amou, que nos amou primeiro e nos ensinou a amar, que guia a nossa vida até o encontro definitivo com Ele.

A Palavra de Deus nos leva a concluir que, tanto o sentido da vida como o da morte está no encontro com Cristo, com o Seu amor, com a vida que Ele nos dá. Para crer em tudo isso, o único caminho é fixar o olhar em Jesus, no que Ele fez por nós.

Nesse sentido São Paulo, na segunda leitura (Rm 5,5-11), que escolhemos entre as leituras propostas, nos ajuda ao recordar que a medida do amor de Deus não é o mérito do esforço humano, mas a desproporcionalidade. Justamente quando não só não merecíamos, mas até mesmo quando éramos pecadores, “inimigos de Deus”, contemplamos, tocamos com a mão um Pai que nos ama ao ponto de enviar o Seu único Filho. Filho que, com alegria, veio para realizar a obra de salvação, consumada quando deu totalmente a Sua vida por nós.

Esta é a “justificação” da qual São Paulo fala nas suas cartas. Trata-se do coração de Deus, explicado no Evangelho de hoje (Jo 6,37-40), onde Jesus ilustra aos Seus o desígnio do Pai, de nos salvar por meio do Seu Filho Jesus, quando acolhemos o amor gratuito que Ele nos doa como dom.

Na expressão de Jesus, “toda pessoa que vê o Filho”, podemos pensar na serpente de bronze, que Moisés levantou no deserto para curar todos os que eram mordidos pelas serpentes venenosas (Num 21,4-9) e, portanto, lembrar também que quem olha o Filho do Homem transpassado e pregado na cruz pelas nossas mãos e por amor a nós, e crê que o Senhor continua a amá-lo, querendo transformar esse nosso coração de pedra num coração de carne, quem crê que esta seja a verdadeira imagem do amor do Pai, este já está salvo, porque permite que Deus o transforme por dentro, isto é, o seu interior e, portanto, nele a vida eterna já começou!

Hoje nós entregamos os nossos entes queridos e queridas nas mãos de Deus, exatamente como fazemos com o pão e o vinho em cada missa, que colocamos sobre o altar, porque sabemos que Ele os ama, certamente, mais do que nós os amamos, e Lhe pedimos que realize a transformação dos seus corações, para que se deixem amar infinitamente por toda a eternidade. 

Se nós cremos que já estamos vivendo a vida eterna e que, em Cristo, estamos próximos dos nossos entes queridos que já partiram, então, hoje é o dia expressarmos gratidão por todos os nossos, pelo que fizeram por nós, mas sobretudo, porque Jesus cuidou e cuida deles. Ele os tem todos sob os cuidados do Seu amor, não permitindo que ninguém os “roube” dele, para “que não se perca nenhum”, a fim de que Ele os leve à plenitude da vida.

A comunidade cristã é o povo que caminha na confiança no seu Senhor, e deve oferecer o que tem de mais precioso a Deus Pai, sabendo que um dia nos encontraremos e que a nossa alegria será completa.