Sagrada Família

Maria e José, que levam o menino Jesus para apresentá-lo ao Senhor, mesmo que não saibam que, com esse ritual, O apresentam e O oferecem a toda a humanidade, para esta faça a experiência do encontro.
SIMEÃO

“A graça de Deus estava com Ele”

Há alguns anos fui visitar uma senhora enferma. Nunca mais esqueci aquela visita. Era senhora de idade avançada, e por isso mesmo sábia, que já havia visitado algumas vezes, me disse: “padre, o senhor se lembra do meu nome?” Como a maioria dos padres, nessa situação, fiquei constrangido, porque não lembrava.

Ela, percebendo o meu constrangimento, me disse meio triste, mas sem nenhuma mágoa: “então, até agora o senhor veio me visitar, mas nunca me encontrou”.

Dona Aparecida, este era o seu nome, tinha razão, pois, não nos encontramos, realmente, com alguém se não a partir do seu nome, que faz com que a pessoa “exista” para nós e nós existamos para ela.

O domingo depois do Natal, isto é, o domingo da Sagrada Família, tem como centro, justamente, o encontro.

No Evangelho desta festa da Sagrada Família, encontramos Simeão, que espera o encontro com o Consolador. Encontramos Ana, que espera, de certo modo, um sentido de fecundidade e de redenção na sua vida de viúva.

Portanto, a liturgia da Palavra nos apresenta homens e mulheres que acreditavam na Aliança entre Deus e o Seu povo, mas que, nas suas vidas, têm necessidade de encontrar o Senhor e dele fazer uma experiência pessoal e profunda.

Maria e José, que levam o menino Jesus para apresentá-lo ao Senhor, mesmo que não saibam que, com esse ritual, O apresentam e O oferecem a toda a humanidade, para esta faça a experiência do encontro.

O menino Jesus! Trata-se de um nome próprio de uma pessoa, que define uma identidade, e permite entrar em relação. Natal é isso: a alegria de Deus em poder ser chamado por cada homem e cada mulher com um nome próprio, o nome de uma pessoa: Jesus!

Não se trata apenas do menino envolto em faixas, como sinal para os pastores, não apenas o rei dos judeus, anunciado pela estrela aos Magos, mas Jesus!

Um Deus ao qual podemos nos relacionar na dinâmica do eu-tu. Alguém com quem podemos entrar em relação, fazendo experiência da vida nova que Ele quer nos oferecer.

Hoje a família da humanidade se torna sagrada, porque é habitada e encontrada por um Deus-homem, chamado Jesus, que revelando o Seu nome, nos ajuda a desvendar também o nosso próprio nome no mais profundo do que somos, e do que somos chamados a ser. Um Deus que ajuda a revelar o nome mais profundo das nossas famílias e, talvez, perceber que todos os seres humanos carregam em si o nome de Deus.

É, justamente, o que acontece com Simeão e Ana, que encontrando pessoalmente Jesus, O trazem às suas próprias vidas, dando um nome às suas esperas e às suas esperanças!

Sem cair no sentimentalismo, este Evangelho (Lc 2,22-40) nos convida a deixar-nos envolver e caminhar com Deus, chamá-Lo pelo nome e ter mais confiança nele. A Palavra de Deus nos convida a “permitir” que Ele confie mais em nós, como também nas vidas agitadas e, muitas vezes, extenuantes, de nossas famílias.

Neste domingo da Sagrada Família, mais do que meditar sobre este Evangelho proposto pela liturgia, deveríamos experimentá-lo, imaginando a cena de Simeão que, movido pelo Espírito Santo, vê Jesus nos braços de sua mãe e, com um desejo irresistível, ele mesmo o toma nos seus braços!

Como Simeão, nós também somos chamados a “pegar” Deus no colo, tomar em nossos braços Jesus e deixar que Ele nos comunique, nos envolva e nos regenere com a Sua própria vida.

A festa da Sagrada Família de Nazaré traz consigo o convite a um encontro pessoal com alguém chamado Jesus. Um convite a “pegá-Lo no colo” e levá-Lo para dentro de nossas famílias, de nossas casas e nossas vidas, fazendo-O presente com a Sua palavra, para deixar que realize em nós o que realizou em Simeão: paz e consolação, como também para que se realize o que realizou em Ana, que foi resgatada de sua condição, tornando sua vida fecunda e redimida.

Tomá-Lo em nossos braços hoje é deixar que aconteça conosco o que aconteceu com Maria, desde o momento do seu Sim até o momento em que o tomou em seus braços: o saber viver a “espada” da contradição do amor crucificado e ressuscitado!

Mas, no fundo, não é isso o que vivemos e celebramos a cada domingo na Eucaristia, quando Jesus se entrega em nossas mãos? Em nosso “colo”- coração? Feliz Natal e um profundo encontro com Jesus, durante todo o ano de 2018!