SEGUNDO DOMINGO DA PÁSCOA – 23 de abril de 2017

Não acreditamos que Jesus ressuscitou só porque o túmulo está vazio, e sim porque nós o encontramos vivo e dando vida através de sua própria vida e na nossa experiência.
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... Oito dias depois... Jesus entrou…

Comentário de pe. Alberto Maggi OSM
Tradução e adaptação: frei Guilherme, SIA

 

(Jo 20,19-31) 19Ao anoitecer daquele dia, o primeiro da semana, estando fechadas, por medo dos judeus, as portas do lugar onde os discípulos se encontravam, Jesus entrou e, pondo-se no meio deles, disse: “A paz esteja convosco”. 20Depois dessas palavras, mostrou-lhes as mãos e o lado. Então os discípulos se alegraram por verem o Senhor. 21Novamente, Jesus disse: “A paz esteja convosco. Como o Pai me enviou, também eu vos envio”. 22E, depois de ter dito isso, soprou sobre eles e disse: “Recebei o Espírito Santo. 23A quem perdoardes os pecados, eles lhes serão perdoados; a quem os não perdoardes, eles lhes serão retidos”. 24Tomé, chamado Dídimo, que era um dos doze, não estava com eles quando Jesus veio. 25Os outros discípulos contaram-lhe depois: “Vimos o Senhor!” Mas Tomé disse-lhes: “Se eu não vir a marca dos pregos em suas mãos, se eu não puser o dedo nas marcas dos pregos e não puser a mão no seu lado, não acreditarei”. 26Oito dias depois, encontravam-se os discípulos novamente reunidos em casa, e Tomé estava com eles. Estando fechadas as portas, Jesus entrou, pôs-se no meio deles e disse: “A paz esteja convosco”. 27Depois disse a Tomé: “Põe o teu dedo aqui e olha as minhas mãos. Estende a tua mão e coloca-a no meu lado. E não sejas incrédulo, mas fiel”. 28Tomé respondeu: “Meu Senhor e meu Deus!” 29Jesus lhe disse: “Acreditaste, porque me viste? Bem-aventurados os que creram sem terem visto!” 30Jesus realizou muitos outros sinais diante dos discípulos, que não estão escritos neste livro. 31Mas estes foram escritos para que acrediteis que Jesus é o Cristo, o Filho de Deus, e, para que, crendo, tenhais a vida em seu nome.

 

Não acreditamos que Jesus ressuscitou só porque o túmulo está vazio, e sim porque nós o encontramos vivo e dando vida através de sua própria vida e na nossa experiência.

É sobre essa experiência que o evangelista João nos escreve no capítulo 20, a partir do versículo 19.

Ao anoitecer daquele dia, o primeiro da semana...”. Retoma-se aqui o primeiro dia da semana da criação do livro do Gênesis. Em Jesus ressuscitado, há uma nova criação que não terá mais fim nem verá a morte. A vida continuará.

...estando fechadas, por medo dos judeus, as portas do lugar onde os discípulos se encontravam...”. Precisamos lembrar que a ordem de prisão não tinha sido decretada somente contra Jesus, mas contra todo o grupo dos discípulos. Não só o mestre era considerado perigoso, não só a doutrina dele: aquele grupo também era perigoso, por isso todos estavam sendo procurados. Foi Jesus mesmo que, numa atitude forte, havia tentado pleitear a libertação dos seus discípulos, dizendo “É a mim que buscais, deixai ir a estes”. Apesar disso, o medo deles permanece.

…Jesus entrou e, pondo-se no meio deles…”. Essa informação que o evangelista nos dá não é um detalhe, é algo muito importante. Jesus se coloca no meio deles. Ele não se colocou à frente, ou acima dos discípulos. Não se trata, portanto, de uma hierarquia em que algumas pessoas estejam mais próximas ou menos próximas de Jesus. Estando no meio deles, todos têm a mesma relação com ele.

...disse: ‘A paz esteja convosco’!”. Na verdade, no texto original em grego, o que lemos é “a paz para vós”. Portanto, não se trata de um convite ou de um desejo de Jesus, mas é uma entrega, uma oferta, um presente, um dom. No meio da sua comunidade, Jesus dá a paz, ou seja, tudo aquilo que pode trazer a felicidade do ser humano.

Depois dessas palavras, mostrou-lhes as mãos e o lado.”. Segundo a cultura judaica, a paz vem acompanhada sempre de alguma coisa concreta. Por isso, Jesus dá a paz e nos faz ver também o motivo concreto: ele mostra as suas mãos e o seu lado, símbolos da tortura e da paixão que ele sofreu. Com esse gesto, ele está dizendo: “Vejam o amor que me levou a dar a vida por vocês, a morrer na cruz, tudo permanece aqui. Não se preocupem...”. Esse é o dom da paz que Jesus nos faz. E os discípulos, que estavam fechados por causa do medo dos judeus, agora se alegram por verem o Senhor.

Novamente, Jesus disse: ‘A paz esteja convosco. Como o Pai me enviou, também eu vos envio’. E, depois de ter dito isso, soprou sobre eles e disse: “Recebei o Espírito Santo.’” Jesus repete a oferta de paz e esclarece que foi o Pai que enviou o Filho para demonstrar esse amor total, incondicional, para todas as pessoas. E agora é o Filho, Jesus, que envia os seus discípulos para demonstrarem o mesmo amor incondicional do Pai por toda a humanidade. E mais uma vez, o evangelista nos faz lembrar a narrativa da criação do Gênesis, com Jesus soprando sobre os discípulos como Deus soprou e deu vida à sua criatura. É a mesma força do Espírito, é o poder e a capacidade de amar a Deus.

A quem perdoardes os pecados, eles lhes serão perdoados; a quem os não perdoardes, eles lhes serão retidos.” Jesus convida os seus discípulos a prolongarem no tempo essa entrega da vida, que ele mesmo fez. O que ele está dizendo e fazendo naquele momento não é uma simples concessão de um poder a alguns, mas é a afirmação da capacidade e da responsabilidade que todos os discípulos têm: entregar a vida a todos. E quando a vida é acolhida, essa vida perdoa (ou ‘cancela’, como está no original), imediatamente, o passado de pecado.

Tomé, chamado Dídimo, que era um dos doze, não estava com eles quando Jesus veio.” Essa palavra ‘dídimo’, em grego, significa ‘gêmeo’. Por que Tomé tem esse “apelido”? Porque ele foi o único que havia compreendido o que aconteceu por ocasião da ressurreição de Lázaro, dizendo ‘vamos e morramos com ele’. Tomé é aquele que têm os mesmos sentimentos de Jesus, é como um ‘gêmeo’ dos sentimentos dele. Mas, por que ele não estava com os demais quando Jesus entrou. Talvez porque o ‘gêmeo’ não tinha o mesmo medo dos outros discípulos. Talvez porque ele conservasse os mesmos sentimentos de Jesus e não precisasse trancar-se e fechar-se como os demais.

 “Os outros discípulos contaram-lhe depois: ‘Vimos o Senhor!’ Mas Tomé disse-lhes: ‘Se eu não vir a marca dos pregos em suas mãos, se eu não puser o dedo nas marcas dos pregos e não puser a mão no seu lado, não acreditarei’.” O que Tomé diz não é, propriamente, uma negação de nada. Ao contrário, é um desejo de acreditar em algo tão maravilhoso. É como naquelas vezes em que nós recebemos uma notícia tão boa e inesperada que chegamos a dizer ‘não, não é possível, não é verdade’. Nesses momentos, não é que estejamos negando a notícia, mas é que nós a consideramos tão boa, que parece até ser impossível. Ou ainda, quando dizemos ‘não acredito’: não é que não queremos acreditar, mas é uma reação diante de uma notícia tão maravilhosa. Essa é a mesma reação de Tomé.

Oito dias depois…” Retoma-se aqui o rito da Eucaristia, do encontro com Jesus. Os discípulos estavam novamente em casa e, agora, Tomé também estava com eles. Jesus entrou, mesmo com as portas fechadas, colocou-se no meio deles... novamente aquelas características. E pela terceira vez oferece a Paz.

Depois ele diz a Tomé: “Põe o teu dedo aqui e olha as minhas mãos. Estende a tua mão e coloca-a no meu lado. E não sejas incrédulo, mas fiel. Tomé respondeu: ‘Meu Senhor e meu Deus!’” É nesse momento que o evangelista apresenta a maior manifestação, a maior confissão de fé de todos os evangelhos. Os outros discípulos aprenderam com Pedro a afirmar sua fé em Jesus que era o Filho de Deus, o Filho do Deus vivo. Mas Tomé é o único que, diante de Jesus, afirma “meu Senhor e meu Deus!” O evangelista, já no prólogo desse Evangelho, tinha dito que ninguém nunca viu a Deus, que o Filho era sua revelação. Tomé, nesse trecho, expressa a plenitude dessa fé. Mas, estranhamente, Tomé passou para a história como o discípulo incrédulo. Contudo, ele é quem proclama e explode na mais alta manifestação de fé dos evangelhos.

Jesus lhe disse: ‘Acreditaste, porque me viste? Bem-aventurados os que creram sem terem visto!” No texto de João, há duas ‘alegrias’ muito especiais. A primeira é a alegria do serviço. Agora vemos nesse trecho qual é a segunda: a alegria da fé. O serviço, livremente oferecido aos outros por amor, torna possível atualizar na própria vida a experiência do Cristo ressuscitado. Jesus declara que são felizes aqueles que acreditam sem precisarem ver. Para aqueles que querem algum sinal, Jesus propõe ‘não, acreditem e tornem-se vocês mesmos um sinal para que outros possam acreditar’.

Em seguida, o evangelista conclui: “Jesus realizou muitos outros sinais diante dos discípulos, que não estão escritos neste livro.” O evangelista está convidando os leitores a escreverem seus próprios “livros”, seus próprios “evangelhos” a partir dessas experiências anunciadas. E era isso que acontecia nas comunidades primitivas, pelo menos até o século IV depois de Cristo.

Mas estes foram escritos para que acrediteis que Jesus é o Cristo, o Filho de Deus, e, para que, crendo, tenhais a vida em seu nome.” Sim, esses sinais foram escritos para que os leitores acreditem. A fé em Jesus oferece uma vida de tanta qualidade e abundância que supera até mesmo a morte. O termo usado no original para “vida” refere-se à vida eterna, não tanto pela duração indefinida, mas pela qualidade indestrutível.

Acolher Jesus na própria existência significa realizar plenamente essa vida.