“Sentará no Trono da sua Glória e separará uns dos outros”

Assim como o agricultor separa os frutos bons dos frutos podres, assim o Senhor reconhecerá, rapidamente, quem orientou a própria vida para o bem dos outros.
VINDE BENDITOS1

Comentário do pe. Alberto Maggi, OSM
Tradução e adaptação: frei Alfredo Francisco de Souza, SIA

Mt 25,31-46
Naquele tempo, disse Jesus a seus discípulos: 31“Quando o Filho do Homem vier em sua glória, acompanhado de todos os anjos, então se assentará em seu trono glorioso. 32Todos os povos da terra serão reunidos diante dele, e ele separará uns dos outros, assim como o pastor separa as ovelhas dos cabritos. 33E colocará as ovelhas à sua direita e os cabritos à sua esquerda. 34Então o Rei dirá aos que estiverem à sua direita: ‘Vinde, benditos de meu Pai! Recebei como herança o Reino que meu Pai vos preparou desde a criação do mundo! 35Pois eu estava com fome e me destes de comer; eu estava com sede e me destes de beber; eu era estrangeiro e me recebestes em casa; 36eu estava nu e me vestistes; eu estava doente e cuidastes de mim; eu estava na prisão e fostes me visitar’. 37Então os justos lhe perguntarão: ‘Senhor, quando foi que te vimos com fome e te demos de comer? Com sede e te demos de beber? 38Quando foi que te vimos como estrangeiro e te recebemos em casa, e sem roupa e te vestimos? 39Quando foi que te vimos doente ou preso e fomos te visitar?’40Então o Rei lhes responderá: ‘Em verdade eu vos digo que todas as vezes que fizestes isso a um dos menores de meus irmãos, foi a mim que o fizestes!’41Depois o Rei dirá aos que estiverem à sua esquerda: ‘Afastai-vos de mim, malditos! Ide para o fogo eterno, preparado para o diabo e para os seus anjos. 42Pois eu estava com fome e não me destes de comer; eu estava com sede e não me destes de beber; 43eu era estrangeiro e não me recebestes em casa; eu estava nu e não me vestistes; eu estava doente e na prisão e não me fostes visitar’. 44E responderão também eles: ‘Senhor, quando foi que te vimos com fome, ou com sede, como estrangeiro, ou nu, doente ou preso, e não te servimos?’ 45Então o Rei lhes responderá: ‘Em verdade eu vos digo: todas as vezes que não fizestes isso a um desses pequeninos, foi a mim que não o fizestes!’46Portanto, estes irão para o castigo eterno, enquanto os justos irão para a vida eterna”.

O Evangelho segundo Mateus 25,31-46, escolhido para a liturgia deste Trigésimo Quarto Domingo do Tempo Comum, traz o último ensinamento importante de Jesus. Para esse ensinamento Jesus se refere a uma imagem conhecida no mundo judaico, contida no livro do Talmude, onde se lê que “no fim dos tempos o Santo, que seja bendito, pegará um rolo da Torá, a Lei, a colocará entre os joelhos e dirá: quem seguiu a lei venha, e receberá a sua recompensa”.

Jesus toma essa descrição como modelo, mas muda o seu conteúdo. O que determina a realização do indivíduo não é o relacionamento que teve com a lei, nem mesmo para com Deus, mas, o que, realmente, importa é a relação que teve com as outras pessoas. Por que isso? Com Jesus, Deus – como descreve Mateus no início do seu Evangelho – é o Deus conosco. Então, com Jesus, a direção da humanidade não é mais voltada exclusivamente para Deus, mas com Deus e como Deus, voltada para os homens.

O Deus de Jesus nunca perguntará se alguém creu nele, mas perguntará se amou como Ele. Vejamos, então, o ensinamento de Jesus. Jesus se apresenta como o Filho do Homem que aparece na Sua glória, e “separa” os povos pagãos. Não se trata do juízo universal. Israel já foi julgada neste Evangelho. Trata-se do juízo dos que não conheceram a Deus. Como o pastor separa as ovelhas dos bodes, assim distinguirá as pessoas.

Assim como o agricultor separa os frutos bons dos frutos podres, como o pescador, neste Evangelho também, soube distinguir os peixes bons e descartar os peixes podres, assim o Senhor reconhecerá, rapidamente, quem orientou a própria vida para o bem dos outros.

“Então o rei dirá aos que estiverem à sua direita: ‘Vinde, benditos do meu Pai’...”, os bendiz ou abençoa, porque são os que realizaram o projeto de Deus com relação à humanidade. E depois, elenca, com as respostas que são dadas, seis ações relacionadas às necessidades, aos sofrimentos e às carências da humanidade.

Dessas seis ações, nenhuma diz respeito à atitude para com a religião, tampouco diz respeito ao comportamento com relação a Deus, mas referem-se ao modo de se comportar diante das necessidades da humanidade. Portanto, o que garante a vida eterna não é o comportamento religioso, mas um comportamento que valoriza e prioriza o ser humano.

O que se destaca nessas seis situações é o encarcerado. “Estive no cárcere e viestes encontrar-me”. Naquele tempo o encarcerado não despertava a compaixão e, muito menos, piedade, mas apenas o desprezo. Ir visitar um encarcerado significava também alimentá-lo, principalmente porque os carcereiros não lhes forneciam alimentos.

Diante disso, o resultado é a surpresa das pessoas as quais Jesus disse que fizeram todas essas coisas a Ele: “Senhor, quando te vimos faminto e te alimentamos etc”. Quem são os irmãos pequeninos? São os “invisíveis” da sociedade, os necessitados, os marginalizados, os excluídos.

De fato, Jesus considera que essas ações foram realizadas para Ele próprio. Isto significa que é preciso amar os outros por Jesus, mas não só, é preciso também amá-los com Jesus e como Jesus. Em seguida, eis o outro lado da moeda: “Depois, dirá também aos que estarão à sua esquerda: ‘afastai-vos de mim, malditos’...”.

É importante destacar o seguinte: enquanto, antes, Jesus chamou os justos de “benditos do meu Pai”, aqui os declara “malditos”, mas não usa a expressão “malditos, ou amaldiçoados por meu Pai”, pois Deus não amaldiçoa, Deus é apenas benção, e não maldição. Esta maldição – a única vez que aparece no Evangelho – refere-se à primeira maldição presente na bíblia, no livro do Gênesis. Trata-se da maldição vinda sobre Caim, que assassinou o próprio irmão.

Portanto, Jesus é muito severo ao ensinar que não oferecer ajuda, não responder às necessidades mais elementares, aos sofrimentos dos outros, equivale a cometer um homicídio. São malditos não por parte de Deus, mas por causa do seu egoísmo, do seu fechamento às necessidades dos que sofrem e, por isso, são considerados malditos, não benditos ou, não abençoados. Logo, quem se fecha à vida se amaldiçoa!

“Ide para o fogo eterno”. O fogo eterno significa o fogo que destrói tudo, “... preparado para diabo”. É a última vez neste Evangelho que o diabo “aparece” na sua destruição final. Isso significa a sua derrota definitiva, porque vai ter o seu fim no fogo eterno, fogo que destrói tudo, “... e os seus anjos”, isto é, os seus emissários, aqueles que agiram como instrumento de morte.

Jesus não repreende essas pessoas por terem feito algo de errado, mas se tornaram instrumentos de morte porque não fizeram o bem nas ocasiões de necessidade e sofrimento. Esses também respondem, reassumindo todas as situações de desconforto da humanidade como a fome, a sete etc, mas ao final, perguntam “... E não te servimos?”. Os pobres que o digam!

Obviamente, eles creem ter servido ao Senhor na liturgia, no culto. Ainda não compreenderam que com Jesus, Deus não pede para ser servido, mas é Ele quem se coloca a serviço dos homens, para que os homens, assim como Ele e com Ele, também se ponham a serviço dos outros.

Eis a sentença de Jesus: “Em verdade eu vos digo: tudo aquilo que não fizestes a um só destes pequeninos, não o fizestes a mim”. Portanto, novamente, o que determina uma vida bem sucedida e o comportamento da pessoa não é o relacionamento com Deus, mas o relacionamento que a pessoa tem com os outros, pois fica claro que quando nos fechamos ao próximo, nos fechamos a Deus.

Esses entrarão no suplício eterno. Trata-se de uma imagem tirada do livro do profeta Daniel (12,2): E muitos dos que dormem no pó da terra ressuscitarão, uns para vida eterna, e outros para vergonha e desprezo eterno”, que significa o fracasso definitivo da própria vida. O termo traduzido por “suplício”, ou “tortura” em grego significa “mutilar”. A punição, portanto, não é dada pelo Pai, mas são esses mesmos que se punem, na medida em que a sua vida é uma vida “mutilada”, uma vida que não alcança a plenitude. Portanto, não é um castigo, mas o fracasso total, que no Apocalipse é definido como a “segunda morte”.

Mas, o Evangelho termina com uma imagem positiva: “... Enquanto os justos irão para a vida eterna”. Os que viveram fazendo o bem, comunicando vida a quem mais precisava, esses realizaram a própria existência e, sobretudo, realizaram o projeto de Deus para com a humanidade.