Solenidade de São Pedro e São Paulo - “Eu te darei as chaves do Reino dos Céus”

Feliz és tu, Simão, filho de Jonas, porque não foi um ser humano que te revelou isso, mas o meu Pai que está no céu
chave

Comentário do pe. Alberto Maggi, OSM
Tradução e adaptação: frei Alfredo Francisco de Souza, SIA
 

(Mt 16,13-19) Naquele tempo, 13Jesus foi à região de Cesareia de Filipe e ali perguntou aos seus discípulos: “Quem dizem os homens ser o Filho do Homem?”14Eles responderam: “Alguns dizem que é João Batista; outros que é Elias; outros ainda, que é Jeremias ou algum dos profetas”. 15Então Jesus lhes perguntou: “E vós, quem dizeis que eu sou?”16Simão Pedro respondeu: “Tu és o Messias, o Filho do Deus vivo”. 17Respondendo, Jesus lhe disse: “Feliz és tu, Simão, filho de Jonas, porque não foi um ser humano que te revelou isso, mas o meu Pai que está no céu. 18Por isso eu te digo que tu és Pedro, e sobre esta pedra construirei a minha Igreja, e o poder do inferno nunca poderá vencê-la. 19Eu te darei as chaves do Reino dos Céus: tudo o que tu ligares na terra será ligado nos céus; tudo o que tu desligares na terra será desligado nos céus”.

 

Com a intenção de manter os Seus discípulos longe do “fermento dos fariseus”, isto é, a doutrina dos fariseus e saduceus, Jesus os leva para longe da situação religiosa judaica e os conduz ao extremo norte do país. É sobre isso que Mateus escreve no trecho do capítulo 16,13-19.

“Jesus foi à região de Cesareia de Filipe”. Cesareia de Filipe está situada no extremo norte do país. Trata-se da cidade construída por um dos filhos de Herodes, o Grande, Filipe. Para distinguí-la da outra Cesareia marítima, foi chamada de Cesareia de Filipe. Na época de Jesus a cidade ainda estava em construção.

Um detalhe a considerar é que perto da cidade se encontrava uma das três nascentes do Rio Jordão, através das quais também se acreditava ser a entrada para o reino dos mortos. Portanto, são elementos que é preciso levar em consideração para a compreensão do que o evangelista nos conta. Pois bem, Jesus conduz os Seus discípulos tão longe da Judeia e também da Galileia para apresentar-lhes uma pergunta.

“Perguntou aos seus discípulos: quem dizem os homens ser o Filho do Homem?” O evangelista contrapõe a expressão “os homens” ao “Filho do homem”, o homem que tem a condição divina, portanto, o homem que tem o espírito e os que não tem o espírito.

Na verdade, Jesus quer saber qual foi o efeito da pregação dos discípulos que Ele havia enviado dois a dois para proclamar a novidade do Reino. A resposta é decepcionante.

“Responderam: alguns dizem que é João Batista”, porque se acreditava que os mártires ressuscitariam rapidamente. “Outros dizem que é Elias”, que segundo a tradição não havia morrido (2Reis 2,1-11), mas tinha sido arrebatado ao céu e voltaria na ocasião da chegada do futuro Messias.

“Outros ainda dizem que é Jeremias”, que ainda, segundo a tradição tinha sobrevivido à tentativa de apedrejamento; “ou algum dos profetas”. Espera-se um dos profetas preditos por Moisés, no entanto, todos os personagens dizem respeito ao antigo, ao velho. Ninguém, nem os discípulos, tampouco o povo ao qual eles foram enviados compreenderam a novidade trazida por Jesus. Então, Jesus diz: “Mas e vós”, portanto, dirige-se ao grupo, “quem dizeis que eu sou?”.

Jesus se dirigiu a todo o grupo dos discípulos, mas é somente um que toma a iniciativa. “Respondeu Simão Pedro”. Simão é o nome, Pedro é um sobrenome negativo que indica a sua teimosia. Quando Mateus o apresenta com este “sobrenome”, significa que há algo contrário ao anúncio de Jesus.

“Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo”. Finalmente, pelo menos um dos discípulos compreendeu que Jesus não é o filho de Davi, aquele que com a violência impôs o reino, mas é o Filho do Deus, literalmente, vivificante, isto é, o Deus que comunica vida.

“E Jesus lhe disse: feliz és tu, Simão”. Por que feliz? Pedro é o puro de coração e, portanto, pode ver a Deus. O chamou de “feliz”, porém lhe chama de “filho de Jonas”. “Filho”, na cultura judaica não indica apenas aquele nasceu de alguém, mas também aquele que se assemelha a alguém no comportamento.

Jesus o chama “Filho de Jonas”. Jonas é o único entre os profetas do Antigo Testamento que fez exatamente o contrário do que o Senhor lhe havia ordenado (cf. Jonas 1,1-3). De fato, o Senhor havia dito: “Levante-se e vá a Nínive, a grande cidade, e anuncie aí que a maldade dela chegou até mim”, mas Jonas fez exatamente o contrário.

Ao invés de ir para o leste, embarcou no navio ao oeste. Depois, finalmente, Jonas se converte. Portanto, neste “filho de Jonas” Jesus quer retratar o próprio Pedro, que fará sempre o contrário do que Jesus lhe pedirá para fazer, mas depois, no fim, se converterá. “Porque não foi um ser humano que te revelou isso, mas o meu Pai que está nos céus”. Pedro é, então, feliz, porque é o puro de coração que pode ver a Deus.

“E eu te digo: Tu és Pedro”. O termo grego adotado pelo evangelista é “Petros”, que indica certo tipo de bloco de pedra, ou mesmo uma pedra que pode ser recolhida e usada para a construção. “E sobre esta pedra”. Pedra não é o feminino de Pedro. Mateus usa o termo grego que indica a pedra que é boa para a construção.

Trata-se do mesmo termo que Jesus escolheu no capítulo 7 para falar da “casa construída sobre a rocha”. Portanto, o que Jesus disse a Simão foi: “Tu és um tijolo. Sobre esta rocha”, que é o próprio Jesus, “Edificarei a minha igreja”. O termo grego “eclesia” não tem nada de sagrado. Trata-se de um termo profano que indica o conjunto, a assembleia dos que são convocados. Portanto, Jesus não pretende construir uma nova sinagoga, mas uma nova realidade, sem conotação religiosa e, por isso, usa este termo laico.

“E o poder”, literalmente, “as portas”. As portas de uma cidade indicavam a sua força, o seu poder. “Dos infernos”, isto é, do reino dos mortos. Lembremos mais uma vez que a cena evangélica se desenvolve próximo a uma das grutas que no imaginário popular eram a entrada do reino dos mortos, “não prevalecerão contra ela” (nunca poderá vencê-la). Quando uma comunidade é construída firmada em Jesus com o seu alicerce, o Filho de Deus vivente, portanto, que comunica vida, as forças negativas da morte não terão nenhum poder sobre ela.

“Eu te darei as chaves do reino dos céus”. Conceder as chaves a alguém significava torná-lo responsável pela segurança daqueles que estavam dentro. Já dissemos, outras vezes, que o Reino dos Céus no Evangelho segundo Mateus não significa um reino nos céus, mas é o Reino de Deus. Portanto, Jesus não dá a Pedro as chaves para o acesso ao além, como também não o encarrega de abrir ou fechar, mas o torna responsável por aqueles que estão dentro desse Reino, que é a alternativa que Jesus veio propor.

“Tudo o que ligares na terra” - aqui o evangelista adota uma linguagem rabínica, que significa declarar uma doutrina autêntica ou não – “será ligado nos céus”, isto é, será ligado, unido em Deus, “e tudo o que desligares na terra, será desligado nos céus”.

O que Jesus diz agora a Pedro, depois, mais tarde, no capítulo 18 dirá a todos os outros discípulos. As últimas palavras que Jesus adotará neste Evangelho representam o envio dos discípulos para irem e ensinarem “tudo o que vos ordenei”.

Portanto, o ensinamento de Jesus, a mensagem que comunica vida, tem a aprovação divina, da parte dos Céus. Contudo, no versículo 20, que não foi incluído neste texto litúrgico, surpreendentemente, Jesus “ordenou aos discípulos que não dissessem a ninguém que ele era o Messias”. Quando Jesus ordena significa que tem resistência. Na resposta de Pedro havia uma parte positiva enquanto reconhecia Jesus como o Filho de Deus que comunica a vida, o Deus vivente, mas qual é a parte negativa dessa resposta?

As pessoas disseram que tu és o Cristo, isto é, o Messias esperado pela tradição. Então, Jesus diz: “Não deveis dizer isto a ninguém”, porque Ele não é o messias esperado pela tradição. Jesus é o Cristo, é o Messias, mas de uma forma completamente diferente. O Messias Jesus não usará o poder, mas o amor; não o poder, mas o serviço. Isto, certamente, provocará o conflito com Pedro. Aquele que tinha sido definido como “pedra” de construção, se tornará uma pedra de tropeço.