Transfiguração do Senhor: O Seu rosto brilhou como o sol!

Ao monte das tentações, corresponde o monte da Transfiguração, que indica que a condição divina, segundo o evangelista, não se alcança mediante a adoração ao poder, mas através do dom de si mesmo. 
TRANSFIGURATION

Comentário do pe. Alberto Maggi, OSM
Tradução e adaptação: frei Alfredo Francisco de Souza, SIA

Mt 17,1-9 - Naquele tempo, 1Jesus tomou consigo Pedro, Tiago e João, seu irmão, e os levou a um lugar à parte, sobre uma alta montanha. 2E foi transfigurado diante deles; o seu rosto brilhou como o sol e as suas roupas ficaram brancas como a luz. 3Nisto apareceram-lhes Moisés e Elias, conversando com Jesus. 4Então Pedro tomou a palavra e disse: “Senhor, é bom ficarmos aqui. Se queres, vou fazer aqui três tendas: uma para ti, outra para Moisés, e outra para Elias”. 5Pedro ainda estava falando, quando uma nuvem luminosa os cobriu com sua sombra. E da nuvem uma voz dizia: “Este é o meu Filho amado, no qual eu pus todo meu agrado. Escutai-o!” 6Quando ouviram isto, os discípulos ficaram muito assustados e caíram com o rosto em terra. 7Jesus se aproximou, tocou neles e disse: “Levantai-vos, e não tenhais medo”. 8Os discípulos ergueram os olhos e não viram mais ninguém, a não ser somente Jesus. 9Quando desciam da montanha, Jesus ordenou-lhes: “Não conteis a ninguém esta visão até que o Filho do Homem tenha ressuscitado dos mortos”.

O Evangelho segundo Mateus apresenta quatro montes ou montanhas, que estão em relação umas com as outras. Assim, temos que, ao monte das Bem Aventuranças, corresponde o monte da ressurreição, o que pretende indicar que a prática da mensagem de Jesus torna possível fazer a experiência do Cristo Ressuscitado e da vida indestrutível. Ao monte das tentações, corresponde o monte da Transfiguração, que indica que a condição divina, segundo o evangelista, não se alcança mediante a adoração ao poder, mas através do dom de si mesmo. É isso o que temos em Mt 17,1-9 para a liturgia da celebração da Transfiguração do Senhor neste primeiro domingo de agosto.

“Seis dias depois”. A datação é valiosa e importante. Trata-se de referência ao sexto dia que, na tradição bíblica, é o dia da criação do homem, como também o dia no qual Deus, o Senhor, manifestou a Sua glória sobre o Monte Sinai. Em Jesus, portanto, se manifesta a glória de Deus na plenitude da Sua criação.

“Jesus tomou consigo Pedro...”. Jesus toma consigo três discípulos, que são os mais difíceis, os que depois também terá como companheiros, inclusive no momento da Sua Paixão. O primeiro é apresentado com o seu “sobrenome” negativo, que significa teimoso, que tem a “cabeça dura”. Trata-se de Simão, que é apresentado com o “sobrenome” de Pedro. “... Tiago e João, seu irmão, e os levou a um lugar à parte”. Esta é uma indicação também valiosa que o evangelista nos oferece. Sempre que Mateus usa a fórmula “à parte”, quer indicar incompreensão ou hostilidade nos confrontos com Jesus e ao Seu ensinamento. Portanto, com esta indicação já sabemos como o texto vai terminar.

“... À parte sobre um alto monte”. Este monte é agora apresentado como resposta ao altíssimo monte sobre o qual o diabo levou Jesus, oferecendo-lhe todos os reinos do mundo, com a condição de que Ele adorasse o poder, afirmando que a condição divina é alcançada através do mesmo. Jesus não aceita e, por isso mesmo, mostra ao tentador – lembremos que Pedro foi chamado de satanás por Jesus neste Evangelho, isto é, o diabo tentador de Jesus naquele momento – que a condição divina não pode ser alcançada através do poder, mas do dom de amor de si.

“... E foi transfigurado...”. Literalmente, na transfiguração ocorre uma metamorfose, “... diante deles”. O autor deste Evangelho mostra qual é a condição do homem que passa pela morte. Pedro, no texto que antecede a este, tinha se revoltado contra Jesus, porque não aceitava a ideia de um messias que iria morrer. Jesus mostra-lhes que a morte não é um fim, mas uma plenitude da vida, que a morte não destrói a pessoa, mas a transforma.

“O seu rosto brilhou como o sol...”. Notemos que o sol é imagem da plenitude da condição divina, “... e as suas vestes ficaram cândidas como a luz”. Aqui temos a imagem do homem na condição divina, como quando Jesus dirá que os justos brilharão como o sol no reino do Pai. As vestes brancas são as vestes da ressurreição.

Portanto, Jesus mostra que, ao passar pela morte, a Sua imagem não só não é destruída, mas, realmente, fortalecida, reafirmada. “... Nisto apareceram-lhes Moisés...”, o grande legislador, “... e Elias”, o grande profeta que, através da violência, impôs a observância da lei divina, “... conversando com Jesus”. Moisés e Elias são dois personagens que conversaram com Deus, e que agora conversam com Jesus.

“Então, Pedro tomou a palavra e disse...”, aqui temos o momento crucial da cena. “Pedro...”, apresentado com o seu sobrenome negativo “... disse a Jesus: ‘Senhor, é bom ficarmos aqui! Se queres, farei aqui três tendas...”. Não é despretensioso, tampouco simples o que Pedro tem a intenção de fazer, pois, mais uma vez neste Evangelho, continua a agir como satanás, como o diabo tentador de Jesus. Mas, de que tentação se trata? Segundo a tradição, o Messias apareceria de repente, durante a festa mais importante em Israel.

Entre as grandes festas de Israel havia um que era chamada simplesmente de “a festa”. Não havia necessidade de indicá-la ou nominá-la. Era a festa por excelência! Trata-se da festa das tendas ou dos Tabernáculos, que ocorria entre setembro e outubro, e que durava uma semana em que os judeus “moravam” sob as tendas, para recordar a libertação da escravidão no Egito. Durante esta festa que recordava a libertação é que, segundo a tradição, apareceria o novo libertador.

“... Uma para ti, uma para Moisés e uma para Elias”. Observemos que, para Pedro, Jesus não está no centro. Quando temos três personagens, o mais importante deve estar sempre no centro. Para Pedro, portanto, Jesus não é o personagem mais importante, mas, Moisés. Qual é a tentação que Pedro faz a Jesus? O messias que Pedro quer é um messias que observe a lei de Moisés, com o zelo profético e violento de Elias.

“... Pedro ainda estava falando...”, mas pelo que parece, Deus não estava de acordo com o que Pedro estava sugerindo através de sua fala, “... quando uma nuvem luminosa”, imagem que, no livro do Êxodo indica a presença libertadora de Deus, “... os cobriu com sua sombra”.

“... E da nuvem uma voz dizia...”. É claro que é a voz de Deus, que dizia: “... este é o meu filho...”. Filho aqui não deve ser entendido apenas como alguém que nasceu de certo homem, mas trata-se de alguém que se assemelha ao pai, no comportamento; “... amado...”, ou seja, o herdeiro de tudo, “... no qual eu pus todo o meu agrado...”. Aqui temos as mesmas palavras que Deus expressou a respeito de Jesus no momento do Seu batismo no Jordão, depois temos um verbo imperativo fortíssimo: “... escutai-o!”.

Os discípulos não devem escutar nem Moisés, nem Elias, mas, Jesus, que tem a plenitude da vontade divina, da revelação divina. “... Quando ouviram isso, os discípulos...”. Esta intervenção divina provoca desconforto e desolação, sinal de que a percebem como um sinal de fracasso; “... caíram com o rosto por terra”, imagem que indica derrota e destruição, “... ficaram muito assustados...”. Mas, por que ficaram atemorizados?

O messias que estão seguindo ao acompanharem Jesus não é o messias esperado por eles: o messias vitorioso, o messias que iria impor a lei, o messias violento, mas, completamente ao contrário. Portanto, trata-se do fracasso dos seus sonhos de ambição e dos seus desejos de supremacia.

“... Mas Jesus se aproximou, tocou neles...”, e os toca naquele momento, exatamente como quando toca os doentes, como toca os mortos, para ressuscitá-los, “... e disse: ‘levantai-vos e não tenhais medo...”. Mesmo com o gesto cheio de ternura e encorajamento de Jesus, a reação dos discípulos ainda é negativa, mais uma vez.

“... Ergueram os olhos e não viram mais ninguém...”, e não veem mais ninguém porque ainda procuram os pontos de referência da tradição do passado; ainda procuram Moisés, a lei que dá segurança; ainda procuram Elias, o profeta que, com o seu zelo e através da violência fez observar esta mesma lei, mas não há mais ninguém. Não há mais Moisés, nem Elias e, quase relutante, o evangelista escreve: “... e não viram mais ninguém, a não ser somente Jesus”. Somente Jesus não é o suficiente para eles, pois querem Jesus segundo a linha de Moisés e de Elias.

“Quando desciam da montanha Jesus ordenou-lhes”, portanto, Jesus se impõe, “...não conteis a ninguém esta visão, até que o Filho do Homem tenha ressuscitado dos mortos”. Pedro, Tiago e João, que Jesus tomou consigo e levou ao monte, experimentaram qual é a condição do homem que passa pela morte, mas não podem se iludir, pois eles ainda tem que ver qual tipo de morte Jesus enfrentará, isto é, a morte que na Bíblia era reservada aos malditos por Deus. Uma morte infame, a morte de cruz. Portanto, para evitar sentimentos de entusiasmo sem verdadeiros fundamentos, não devem dizer nada a ninguém, até que Jesus não tenha ressuscitado. É como se Jesus dissesse: primeiro tenho que passar pela morte, a morte na cruz.