V Domingo de Páscoa (Ano A)

Ver Jesus não é pouca coisa, é ver o próprio Deus, seu projeto na humanidade: perdão, justiça, inclusão, libertação, tolerância. 
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Se quiséssemos escolher um ensinamento de Jesus de Nazaré que fosse o mais fundamental nas tradições que compõem os Evangelhos, talvez pudéssemos citar os textos que vêm nos acompanhando nos últimos domingos de Páscoa. Afinal, é a experiência pascal que faz os discípulos de Jesus perceberem quão grandiosa e invencível seria aquele projeto. E esse ensinamento é: Deus é amor. Sendo amor, está em relação amorosa, sempre. Desde a eternidade o Pai ama o Filho Eterno, está em comunhão com ele.

O homem procura a Deus, deseja o sagrado, quer relacionar-se com o que é espiritual. Filipe nos representa a todos no pedido que faz a Jesus hoje no Evangelho: “mostra-nos o Pai”. Queremos, com toda a força de nosso coração, encontrar as respostas às perguntas mais fundamentais de nossa existência, especialmente quanto aos meios para sermos felizes. Já que Jesus nos conforta dizendo para não termos medo, que confiemos no Pai e nele mesmo, que há um lugar especial para mim reservado junto de Deus, então esse pedido é uma expressão de profundo desejo. (Jo 14,1-12)

O caminho para a vida é Jesus. Aliás, ele é o próprio caminho e a própria vida, a que é mais abundante. Nós, os discípulos, às vezes, como Filipe e como Tomé do trecho joanino de hoje, já ouvimos, já acompanhamos, já convivemos com Jesus, o Mestre. Mas, mesmo assim, estamos com os olhos ainda dispersos procurando respostas, caminhos. Querendo não sei o quê e não sei onde. Ver Jesus não é pouca coisa, é ver o próprio Deus, seu projeto na humanidade: perdão, justiça, inclusão, libertação, tolerância. Projeto de amor. Seguir Jesus é aderir a esse projeto, é encontrar essa resposta maravilhosa e tão acessível. Essa é a verdade com a qual o próprio Jesus se identifica. Essa é a verdade que nós somos chamados a ser e anunciar.

Somos eleitos para essa experiência, isso é o que nos lembra a comunidade petrina na segunda leitura (1Pd 2,4-9). Fomos escolhidos, cada um de nós, para isso. A Igreja é depósito dessa eleição. Mas, isso não nos faz melhores que ninguém. Quando alguém é eleito, é eleito para cumprir algo, para um serviço. Na religião, chamamos isso de ‘sacerdócio’. Todos os batizados participam de um mesmo sacerdócio: servir a humanidade.

Mas, servir não é uma missão aleatória ou etérea. As primeiras comunidades dos discípulos de Jesus nos mostram que servir é perceber o que ainda não fizemos ou o que fizemos mal. Na primeira leitura (At 6,1-7), há um problema para ser resolvido: as viúvas não estão sendo atendidas adequadamente em suas necessidades. E hoje, em minha vida, o que eu não fiz ainda que já deveria ter feito? O que fiz mal e preciso corrigir? As respostas para essas perguntas são a missão sacerdotal de todos os batizados. Os diáconos que são, também eles, ‘eleitos’, representam a cada um de nós nesse discipulado e nessa missão do serviço. Enquanto alguns podem estar parados reclamando, murmurando, sonhando, só projetando e presos ao superficial, como denuncia o texto de Atos, o discípulo missionário da Páscoa de Jesus vai em busca do que é certo e do que é preciso ser feito.

E o critério desse projeto é sempre o mesmo: socorrer os mais enfraquecidos à nossa volta. Resgatar a dignidade da pessoa humana, onde e quando ela estiver ameaçada. A prece do salmista deste domingo anima os justos e anuncia o ‘direito e a justiça’: é isso que Deus ama. (Sl 32/33) Sintamo-nos denunciados pelo direito e pela justiça, e animados por nosso Mestre a promovê-los.