Vigésimo Quinto Domingo do Tempo Comum– ANO A – 2017

Não é fácil aceitar um Deus que, ao invés de recompensar o bom e castigar o mau, "faz nascer o Sol sobre o mau e o bom" (Mt 5, 45), oferecendo todo o seu amor.
IMAGEM TEXTO GUILHERME

“...estás com inveja, porque estou sendo bom?”

Comentário do pe. Alberto Maggi, OSM
Tradução e adaptação: frei Guilherme Pereira A. Júnior, SIA

Mt 20,1-16a - Naquele tempo, Jesus contou esta parábola a seus discípulos: 1“O Reino dos Céus é como a história do patrão que saiu de madrugada para contratar trabalhadores para a sua vinha. 2Combinou com os trabalhadores uma moeda de prata por dia, e os mandou para a vinha. 3Às nove horas da manhã, o patrão saiu de novo, viu outros que estavam na praça, desocupados, 4e lhes disse: ‘Ide também vós para a minha vinha! E eu vos pagarei o que for justo’. 5E eles foram. O patrão saiu de novo ao meio-dia e às três horas da tarde, e fez a mesma coisa. 6Saindo outra vez pelas cinco horas da tarde, encontrou outros que estavam na praça, e lhes disse: ‘Por que estais aí o dia inteiro desocupados?’ 7Eles responderam: ‘Porque ninguém nos contratou’. O patrão lhes disse: ‘Ide vós também para a minha vinha’. 8Quando chegou a tarde, o patrão disse ao administrador: ‘Chama os trabalhadores e paga-lhes uma diária a todos, começando pelos últimos até os primeiros!’ 9Vieram os que tinham sido contratados às cinco da tarde e cada um recebeu uma moeda de prata. 10Em seguida vieram os que foram contratados primeiro, e pensavam que iam receber mais. Porém, cada um deles também recebeu uma moeda de prata. 11Ao receberem o pagamento, começaram a resmungar contra o patrão: 12‘Estes últimos trabalharam uma hora só, e tu os igualaste a nós, que suportamos o cansaço e o calor o dia inteiro’.13Então o patrão disse a um deles: ‘Amigo, eu não fui injusto contigo. Não combinamos uma moeda de prata? 14Toma o que é teu e volta para casa! Eu quero dar a este que foi contratado por último o mesmo que dei a ti. 15Por acaso não tenho o direito de fazer o que quero com aquilo que me pertence? Ou estás com inveja, porque estou sendo bom?’ 16aAssim, os últimos serão os primeiros, e os primeiros serão os últimos”.


Não é fácil aceitar um Deus que, ao invés de recompensar o bom e castigar o mau, "faz nascer o Sol sobre o mau e o bom" (Mt 5, 45), oferecendo todo o seu amor. Um Deus assim parece injusto, como o patrão descrito na parábola narrada por Jesus (Mt 20,1-15).

O dono de uma vinha é apresentado contratando trabalhadores. Ele vai pessoalmente, logo ao amanhecer, à praça da cidade, para buscar seus trabalhadores. Isso indica que o trabalho a ser feito é muito importante (Mt 20,1). O salário era um denário por dia. E é exatamente isso que o patrão combina com os trabalhadores. Havia muitas pessoas procurando por trabalho. Com tanta mão-de-obra disponível, o patrão conseguia todos os trabalhadores de que precisava para as necessidades do dia com uma só convocação. Contudo, surpreendentemente, às nove horas da manhã, o patrão sai novamente, procurando por outros trabalhadores. Mas ele sai novamente em busca de mais pessoal, não porque precisasse de mais trabalhadores. Ele já tinha conseguido todos de que precisava. Porém, ele percebe que há ainda muitos desempregados e, naquela sociedade, ficar sem trabalho significava ficar sem comer. Aquele patrão está preocupado com a necessidade deles. Mais uma vez, ele promete uma remuneração com base no trabalho realizado.

Ao meio do dia, o patrão retorna à praça e contrata outros trabalhadores. Ele faz o mesmo às três horas da tarde. Já há trabalhadores suficientes na vinha, mas o patrão está mais preocupado com o fato de que ainda há pessoas sem trabalho do que com seus próprios interesses. Quase no pôr-do-sol, às cinco horas da tarde, o texto nos mostra o patrão em busca de outras pessoas que ninguém havia chamado ainda para trabalhar.

Faltava apenas uma hora para final do dia útil, e ninguém mais os contrataria. Eles não tinham conseguido trabalho, então, não terão nada para comer. Se ninguém havia pensado neles, aquele proprietário da vinha pensa, chamando-os também para trabalhar, sem combinar com eles o salário que receberiam: eles nem sequer vão trabalhar por uma hora, poderiam ser pagos com um pedaço de pão.

A praça já está deserta. Nenhum trabalhador está à espera de trabalho: eles estão todos na vinha, lotada de trabalhadores. Aqueles que começaram a trabalhar ao amanhecer ficaram felizes por ver outros braços chegarem para o trabalho: com a contribuição deles, o dia não foi tão pesado. Sua felicidade se transforma em entusiasmo quando eles percebem que o administrador começou a pagar pelos que chegaram por último. Eles veem que aqueles que mal trabalharam recebem um denário, o salário de um dia. Ora, na visão deles, não é um pagamento, apenas uma ajuda, um presente. Se aqueles que trabalharam só uma hora ganharam o que tinha sido combinado para quem trabalhasse o dia todo, eles, que aguentaram o peso do dia e o calor, certamente receberão pelo menos três vezes mais.

Mas quando eles mesmos são pagos também com um denário, o que havia sido combinado, eles expressam toda sua decepção e desilusão, pois estavam certos de que "iam receber mais" (Mt 20, 10), e consideram que o patrão é injusto.

-O senhor da vinha não era injusto, e sim generoso, afinal, ele cumpriu com o que foi combinado. Ele não tirou nada daqueles que trabalharam desde o amanhecer, mas quis pagar o mesmo salário àqueles que chegaram por último. Ao defender o seu comportamento, o dono da vinha é definido como bom ("...estás com inveja porque estou sendo bom?", Mt 20, 15). Na atitude do dono da vinha, Jesus descreve  a do Pai.

Deus não é um patrão severo, mas um Senhor generoso que não paga os homens de acordo com seus méritos, mas de acordo com suas necessidades. O amor de Deus não é oferecido como um prêmio, mas como presente. O que motiva suas ações é a necessidade do homem, sua felicidade. E se algum desses comportamentos parecer injusto a alguém, é porque o seu olhar é maligno, um olhar de avareza, de inveja (Dt 15,9), daquele que faz tudo para sua própria conveniência. Tais pessoas nunca entenderão a ação de um Deus que não "busca seu próprio interesse" (1 Coríntios 13, 5), mas o do homem.