Vinde a Mim - Encontrareis Descanso

Reflexão da Palavra de Deus no Décimo Quarto Domingo do Tempo Comum
VINDE-A-MIM

A página do Evangelho deste Décimo Quarto Domingo do Tempo Comum é para nós, um alento. Vivemos tempos tão agitados e com tantos afazeres, que já nos acostumamos com o cansaço e com a agitação que nos faz sentir o peso de tudo o que nos é imposto no ritmo da vida que levamos.

Jesus nos convida a encarar as demandas da vida que nos são impostas ou que nós mesmos nos impusemos, porque a sociedade em que vivemos também nos impõe tantas “necessidades”. Convida-nos também a não sucumbirmos à tentação de passar os domingos como se Ele não estivesse à nossa espera, e mais uma vez dirige o convite para irmos a Ele para encontrar descanso.

Imaginemos as palavras do Profeta Isaías (55,1-3) na boca de Jesus, dirigidas a cada um de nós hoje: Todos vós, que estais sedentos, vinde à nascente das águas; vinde comer, vós que não tendes alimento. Vinde comprar trigo sem dinheiro, vinho e leite sem pagar. Por que despender vosso dinheiro naquilo que não alimenta, e o produto de vosso trabalho naquilo que não sacia? Se me ouvis, comereis excelentes manjares, uma suculenta comida fará vossas delícias. Prestai-me atenção, e vinde a mim; escutai, e vossa alma viverá: quero concluir convosco uma eterna aliança, outorgando-vos os favores prometidos a Davi”.

Num mundo marcado pelo lucro como prioridade absoluta, somos chamados hoje a aprender que tudo o que Jesus ensina é a gratuidade como o grande valor a ser buscado e vivido, “porque foi do agrado do Pai”. Trata-se da lógica de Deus: entregar os próprios segredos aos pequenos aos desprovidos de posses. Àqueles que tem apenas a consciência e o sentimento de serem pobres e, portanto, livres de qualquer aprisionamento e escravidão.

Os sábios e os inteligentes, ao contrário, que se deixam guiar pela lógica do mundo e do mercado, já se sentem saciados de tudo, livres de tudo e de todos, mas são escravos das suas posições pelas quais lutam com unhas e dentes, dos seus bens e do juízo que os outros fazem sobre eles.

É por isso que é tão difícil acolher um convite como este que Jesus nos faz hoje, porque nos obriga a sair da nossa autossuficiência para ir ao encontro dele, que compartilha conosco o jugo e o peso do dia-a-dia, para aprendermos com Ele, passo a passo, a humildade e mansidão de coração.

É inegável, porém, que o mundo está nas mãos dos “sábios” e dos “inteligentes”, que os prepotentes parecem sempre “levar a melhor” sobre os pobres, que a humildade e a mansidão não servem de nada e parecem piada no que se refere ao caminho da felicidade e do sucesso na vida.

Mas Deus escolheu os pobres, os aflitos, os mansos, os perseguidos, os débeis. Ele os ama tanto, que Ele mesmo escolheu ser pobre, aflito, manso, perseguido e débil. “Vós conheceis a bondade de nosso Senhor Jesus Cristo. Sendo rico, se fez pobre por vós, a fim de vos enriquecer por sua pobreza (2Cor 8,9).

Esta revelação é chocante e faz estremecer de alegria o coração do homem. Ela exprime que, desde sempre, é isso que fez arder o coração de Deus de amor pelo ser humano. Deus se fez homem, como nós, para estar sempre ao nosso lado, para pisar o solo em que pisamos, para compartilhar em tudo o nosso cansaço e a nossa alegria de seres humanos.

Sim, porque desde o momento em que o Verbo se fez carne, não há caminho que Ele não tenha percorrido, não há alegria ou sofrimento que Ele não tenha experimentado na pele, não há peso que Ele mesmo não tenha suportado, até a cruz!

A Boa Notícia é que Ele veio para curar todas as nossas feridas e aliviar todo o nosso cansaço. O peso do caminho percorrido que já sentimos, assim como o peso dos “incidentes” da grande viagem da aventura humana que ainda temos a percorrer. O peso das decepções e das incompreensões; dos fracassos e o peso de suportar e até de carregar as pessoas. O peso de uma sociedade hostil e o peso da injustiça; o peso da falsidade e da insegurança.

Enfim, tudo isso, e ainda muito mais do que isso, se acumula e mais do que esmagar-nos, nos entorpece, turva a nossa visão, nos esgota e drena as nossas energias.

Para muitos de nós, viver e caminhar não é mais interessante. O único interesse na vida passa a ser a necessidade de encontrar um lugar para repousar do cansaço.

O convite que Jesus faz hoje a cada um de nós é para que quando não tivermos mais vontade de nada, a não ser de deixar de lutar, de esperar e de caminhar, abandonemo-nos nos Seus braços e coloquemos nele as nossas aflições e tristezas, e Ele será o nosso sustento e alívio.

O que Jesus nos traz hoje é a esperança e a confiança que podemos ter de que Deus não decepciona. Ele nos espera paciente à beira dos caminhos que percorremos, nas periferias da nossa história, para nos estender a Sua mão mais uma vez, porque não podemos carregar os fardos sozinhos. Ele carrega conosco.

Sem Cristo ao nosso lado o peso das nossas fragilidades, nos nossos limites, dos nossos pecados, do cansaço de todos os dias, em longo prazo, poderia nos destruir e aniquilar, mas proclama Paulo na segunda leitura (Rm 8,11) (...) se o Espírito daquele que ressuscitou Jesus dentre os mortos mora em vós, então aquele que ressuscitou Jesus Cristo dentre os mortos vivificará também vossos corpos mortais por meio do seu Espírito que mora em vós”.

É impossível não escutar este Evangelho e não pensar em tantas famílias e pessoas em dificuldades; que nos sofrimentos e provações se sentem abandonadas por Deus. Mas também naquelas que, ao contrário, apesar de todas as provações, tristezas e sofrimentos continuam a crer, a esperar e a rezar em meio às lágrimas, e também naquelas que se renderam e há muito já desistiram de lutar.

A todas Jesus repete: “Vinde a mim e eu vos aliviarei”, deixai-me entrar em vossas casas, deixai-me ser vosso ‘esposo” e ajudar a suportar vossos fardos! “Matriculai-vos” na escola do meu coração e aprendei a amar com Deus.

Depois do diagnóstico do mal que nos exaure as forças até o esgotamento psíquico, espiritual e físico, portanto, Cristo nos oferece um alívio: “Vinde a mim, todos vós, que estais cansados e fatigados sob o peso dos vossos fardos, e eu vos darei descanso”.

Mas, imediatamente em seguida diz: “tomai sobre vós o meu jugo...”.  É, no mínimo, estranho! Como descansar carregando mais um fardo? Em vez de aliviar o peso que já temos que carregar, em vez de nos oferecer Suas carícias, o Senhor nos dá seu jugo”? Ainda que garanta que o jugo é suave e o fardo leve, trata-se de fardo e peso! Já não suportamos mais e Ele aumenta a nossa carga, ainda que seja leve?

Mesmo assim podemos amar esse Deus que não nos permite esmorecer, nem acalmar o nosso cansaço em passivamente, mas nos convida ainda mais uma vez a caminhar, a começar de novo, seguindo os Seus passos, porque o caminho que pretendemos percorrer é longo e desafiador e, por isso mesmo, mais tempo teremos para deixar para trás o cansaço.