XIX Domingo do Tempo Comum – Ano A

A mensagem de Jesus é uma mensagem universal. Ele não veio para restaurar o reino de Israel, mas para inaugurar o Reino de Deus. E o Reino de Deus significa que o seu amor é universal, não somente pela qualidade,  mas para todos.
SOBRE AS AGUAS

“...manda-me ir ao teu encontro, caminhando sobre a água.”

Comentário do pe. Alberto Maggi, OSM
Tradução e adaptação: frei Guilherme P. Anselmo Jr, SIA

Mt 14,22-33 - Depois da multiplicação dos pães, 22Jesus mandou que os discípulos entrassem na barca e seguissem, à sua frente, para o outro lado do mar, enquanto ele despediria as multidões. 23Depois de despedi-las, Jesus subiu ao monte, para orar a sós. A noite chegou, e Jesus continuava ali, sozinho. 24A barca, porém, já longe da terra, era agitada pelas ondas, pois o vento era contrário. 25Pelas três horas da manhã, Jesus veio até os discípulos, andando sobre o mar. 26Quando os discípulos o avistaram, andando sobre o mar, ficaram apavorados e disseram: “É um fantasma”. E gritaram de medo. 27Jesus, porém, logo lhes disse: “Coragem! Sou eu. Não tenhais medo!” 28Então Pedro lhe disse: “Senhor, se és tu, manda-me ir ao teu encontro, caminhando sobre a água”. 29E Jesus respondeu: “Vem!” Pedro desceu da barca e começou a andar sobre a água, em direção a Jesus. 30Mas, quando sentiu o vento, ficou com medo e, começando a afundar, gritou: “Senhor, salva-me!” 31Jesus logo estendeu a mão, segurou Pedro, e lhe disse: “Homem fraco na fé, por que duvidaste?” 32Assim que subiram no barco, o vento se acalmou. 33Os que estavam no barco prostraram-se diante dele, dizendo: “Verdadeiramente, tu és o Filho de Deus!”

 

A mensagem de Jesus é uma mensagem universal. Ele não veio para restaurar o reino de Israel, mas para inaugurar o Reino de Deus. E o Reino de Deus significa que o seu amor é universal, não somente pela qualidade,  mas para todos. Assim, Jesus quer comunicar esse amor também aos pagãos, mas encontra resistência entre os discípulos.

É isso que vemos escrito em Mateus, no capítulo 14, nos versículos de 22 a 33.

 “Depois da multiplicação dos pães”, Jesus mandou os discípulos fazerem algo que eles não queriam fazer, que “entrassem na barca”. Essa barca é imagem da comunidade dos cristãos. Ele mandou que “seguissem, à sua frente, para o outro lado do mar”. Eles não querem ir, pois o outro lado do “mar”, que é o lago de Tiberíades, é terra dos pagãos. Os discípulos não querem ir até eles, especialmente depois da partilha do pão que eles viram Jesus fazer, verdadeira antecipação do que ele faria consigo mesmo ao dar-se como pão. Eles não tinham a intenção que esse alimento de vida partilhado entre os judeus alcançasse também os pagãos.

Depois de despedir as multidões “... Jesus subiu ao monte”. Esse monte, cujo nome não é indicado, representa o monte das bem-aventuranças. Ali Jesus anunciou sua mensagem “a sós”. Essa expressão é usada pelo evangelista para referir-se a um contexto de resistência, de hostilidade por parte dos discípulos. É por isso que Jesus está só, “para rezar”. Aliás, em Mateus, vemos Jesus rezar duas vezes: uma é aqui, nesse trecho, outra é no Getsêmani. Sempre em momentos de intensas crises vivenciadas pelo grupo.

A noite chegou... continuava sozinho”. O evangelista enfatiza o contexto da noite. Como será também após a Santa Ceia. Nos dois textos, Jesus sai sozinho, à noite, para rezar. Os discípulos, nos dois episódios, acompanham o Mestre, mas não o seguem.

A barca, porém, já longe da terra, era agitada pelas ondas, pois o vento era contrário”. O que é esse vento? O termo vento aparece três vezes em nosso trecho. Três é o número da totalidade na tradição de Israel. E o vento era contrário, ou seja, representa a resistência dos discípulos que não querem nem saber de ir aos pagãos. Eles têm em mente a supremacia de Israel, o domínio que Israel deve ter sobre os povos pagãos. Não passa pela cabeça deles ir e servir os povos pagãos. Eis aí o que significa o vento contrário.

Pelas três horas da manhã, Jesus veio até os discípulos, andando sobre o mar”. Deus é aquele que vem em socorro deles no limiar da aurora. Essa imagem de “caminhar sobre o mar” já tinha sido usada no livro de Jó. Naquela tradição, só Deus pode caminhar sobre as águas do mar, que indicava o caos, seria impossível ao homem dominar o mar desse jeito. Dessa forma, Jesus demonstra sua condição divina.

Quando os discípulos o avistaram, andando sobre o mar, ficaram apavorados e disseram: ‘É um fantasma’.” Por que eles têm tanto medo? Porque, para eles, que não compreenderam ainda quem é Jesus, seria impossível para um homem ter a condição divina e andar sobre as águas. Eles acham que Jesus é um enviado de Deus, um profeta, mas ainda não conseguiram entender que Jesus é Deus. Por isso é que eles acham que é um fantasma, e não Jesus.

Jesus, porém, logo lhes disse: ‘Coragem! Sou eu’.” Essa expressão “eu sou” é o nome de Deus na tradição de Israel, é o nome com o qual Deus respondeu a Moisés no famoso episódio da sarça ardente. No livro do Deuteronômio, o Senhor diz: ‘vede que eu EU SOU, e não há nenhum outro Deus além de mim’. Portanto, Jesus confirma sua condição divina dizendo EU SOU.

“... ‘Coragem! Sou eu. Não tenhais medo!’ Então Pedro lhe disse: ‘Senhor, se és tu... ’ ” O evangelista cita Simão pelo codinome “Pedro”, que é negativo, e que está fazendo algo contrário a Jesus. A dúvida de Pedro  manifestada na expressão “se és tu” soa como a proposta do diabo no deserto ‘.. se tu és o filho de Deus... ’ Pedro começa sua atividade de tentador de Jesus, de adversário. Aliás, será o único discípulo que merecerá de Jesus o adjetivo de “satanás”, que significa adversário. Pedro desconfia dele e o tenta dizendo “se és tu”, exatamente como o diabo tinha feito no deserto.

“... ‘manda-me ir ao teu encontro, caminhando sobre a água’...” Pedro está querendo ter a condição divina. Mas ele acha que essa condição vai cair do céu.

É interessante que Jesus o convida a ir. Mas Pedro, começando a caminhar sobre as águas, “sentiu o vento”. Trata-se daquele vento forte e contrário. É aquele vento da parábola da casa construída sobre a rocha, representa aquelas adversidades normais que sobrevêm aos que têm fé, mas se têm sua casa construída sobre a rocha, estarão sãos e salvos. Mas, se a casa estiver construída sobre a areia, irá desabar. Pedro construiu sua casa sobre a areia.

“... ficou com medo e, começando a afundar, gritou: ‘Senhor, salva-me!’.” Simão percebeu sua dificuldade. Jesus o tinha chamado para ser pescador de homens, e acaba sendo ele quem precisa ser “pescado”.

Jesus logo estendeu a mão, segurou Pedro, e lhe disse: ‘Homem fraco na fé, por que duvidaste?’.” Pedro é o único que recebe, por duas vezes, essa chamada de atenção: “homem fraco na fé”. Ele, que deveria ser pescador de homens, é quem precisa ser pescado por Jesus.

Assim que subiram no barco, o vento se acalmou”. Na comunidade, quando Jesus está presente e está no comando da comunidade, as hostilidades cessam.

Os que estavam no barco prostraram-se diante dele, dizendo: ‘Verdadeiramente, tu és o Filho de Deus!’.” No texto original, em grego, não consta o artigo definido. Lá não se diz “o filho de Deus”, mas sim “filho de Deus. Talvez para deixar claro não se tratar daquele determinado messias esperado pela tradição, violento e justiceiro, e sim um jeito novo dos discípulos compreenderem a Deus. Será essa também a exclamação dos soldados por ocasião da ressurreição de Jesus.