300 anos de Aparecida “Celebrar a Vida: o desafio da fé”

A famosa e amada imagem de Nossa Senhora Aparecida é uma escultura pequena, feita de barro cozido.
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“Quem é esta que avança como a aurora, formosa como a lua, brilhante como o sol, terrível como um exército em ordem de batalha?” Esta antífona, que se tornou mariana e que fala de uma mulher bela, esplendente, forte e grandiosa, parece não encontrar eco naquela imagem tão simples, aparecida no Vale do Paraíba em 1717 e venerada, desde então, com tanto carinho e amor.

A famosa e amada imagem de Nossa Senhora Aparecida é uma escultura pequena, feita de barro cozido. Não sabemos quem a esculpiu, nem quando, nem onde. Não sabemos por onde passou antes de ir parar no fundo do rio Paraíba. Sabemos apenas que é uma das tantas imagens de Maria de Nazaré, a mãe de Jesus, esposa de José. Sabemos também que é a Imaculada Conceição, antiga e poderosa devoção mariana da Igreja.

Na celebração dos 300 anos do encontro daquela imagem, pouco importa o que sabemos ou o que não sabemos sobre a imagem. O que importa mesmo é o significado daquele encontro.

O Brasil estava quebrado: a escravidão do povo negro, a corrupção contumaz das lideranças políticas, a fome e a miséria, a opressão dos mais pobres, a falta de emprego. Aliás, aqueles três pescadores que encontraram a imagem, representam tantos outros pescadores que, naqueles dias, estavam tendo que trabalhar mais que dobrado para dar conta de uma exigência de um conde que queria um grande banquete de boas vindas para gente importante. E o que eles encontraram no rio? Uma imagem que também estava quebrada, como suas vidas.

Quando lemos a Sagrada Escritura, vemos Deus se fazer presente de tantas formas e por tantas vezes, sempre do lado dos mais fracos, dos que precisam de ajuda mais urgente. Para isso, Deus se instrumentaliza dos profetas, das mulheres, das crianças, dos doentes, dos excluídos... dos pescadores. Naquela vilazinha de Guaratinguetá do século XVIII não foi diferente. Deus se aproximou de seus filhos sofridos com uma imagem que se parecia com seus sofrimentos, que lhes falava ao coração, uma imagem da mulher que ele escolheu para assumir, justamente, a carne humana, sofrida e humilhada. A cor negra e a simplicidade da imagem são símbolos da subversão que nasce no coração de Deus que escolhe estar do lado dos empobrecidos. É uma denúncia profética silenciosa e singela. Deus se revela a partir das periferias da história humana. Foi assim na Galileia, com Jesus de Nazaré, em Guadalupe, em Lurdes, foi assim também nas mãos e na vida daqueles pescadores.

A imagem que foi retirada do fundo do rio Paraíba em 1717 foi guardada carinhosamente por um dos três pescadores que a encontrou. A imagem ficou com Filipe até 1732. Quinze anos em que tudo o que ela significaria foi forjado. Esse significado começou quando o que estava quebrado foi consertado. A cabeça, que foi encontrada logo depois da imagem, é colada à sua imagem. É já um verdadeiro grito profético que denunciava as dores de um povo quebrado pelo sofrimento, exploração e escravidão e o anúncio da intervenção amorosa, e materna, para consertar o Brasil.

Trezentos anos depois, o Brasil está “consertado”? Melhor que responder a essa pergunta - que talvez não encontre respostas muito positivas - será refazer o percurso mariano daqueles pescadores que compreenderam, em sua simplicidade, aquela mensagem cheia de esperança. Melhor será perceber que a imagem foi quebrada de novo, em 165 pedaços, e reconstruída, num sinal de mais esperança. Não podemos perder essa esperança mariana, nunca.

“A pequenina imagem retirada das águas do rio pelos pescadores comunica-nos mensagem de solidariedade com os filhos, na época, mais oprimidos. Identificou-se com os brasileiros que sofriam a injustiça da escravidão. A mãe de Deus mostrava nos traços de sua face a semelhança com os filhos negros, o amor que lhes dedica, a dignidade que lhes compete. No tempo das discriminações, tornou-se a mãe de todas as raças, fez-nos compreender que somos todos irmãos” (MENDES DE ALMEIDA, 2016, p. 37). É esta a memória que somos chamados a fazer diante da imagem de Nossa Senhora Aparecida.

A Igreja não é um transatlântico, é um barquinho frágil que leva pescadores sofridos em busca de esperança. Os peixes que não encontravam antes da imagem serão abundantes ao encontrarem esperança. Também hoje, a abundância de vida, liberdade, alegria e esperança é o horizonte que os romeiros e fieis têm diante dos olhos emocionados. A Legião de Maria deve ser portadora desse olhar libertador e transformador, pois esta é a opção que o próprio Senhor nos ensina a fazer: celebrar a vida, aquela abundante vida. Eis o desafio de nossa fé!

Bibliografia

CORDEIRO, José; LUIS, Denilson; RANGEL, João. Aparecida: devoção mariana e a imagem Padroeira do Brasil. São Paulo: Cultor de Livros, 2013.

MENDES DE ALMEIDA, Luciano. A padroeira do Brasil. In: SILVA, Edmar Jose da; MELO, Edvaldo Antonio. Dizer o testemunho – dom Luciano Mendes de Almeida. São Paulo: Paulinas, 2016. v. 2

 

Frei Guilherme Pereira Anselmo Júnior, sia
Mestre em Teologia (Bíblia) pela PUC-SP. Diretor Espiritual do Senatus Nossa Senhora Aparecida, da Legião de Maria.