Advento: Proposta e Resposta

O anjo pode agora continuar o seu anúncio, revelando a missão de Maria chamada a ser a Mãe do Filho de Deus, que vem para cumprir as promessas feitas por Deus ao seu povo.
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A liturgia da Igreja nos propõe um itinerário feito de etapas, com os seus momentos de preparação e conclusão. O objetivo, que se renova a cada ano, é entrar sempre mais profundamente no mistério de Cristo. Isto é, deixar que este mistério penetre e ilumine profundamente a nossa vida.

A primeira parte deste itinerário, Advento e Natal, nos faz meditar não tanto sobre a vinda histórica de Jesus, mas sobre o mistério da Sua Encarnação, que atinge cada tempo e cada lugar, fazendo-nos encontrar um Deus que quer tornar-se conhecido dos homens e que, ao fazê-lo, dá a Si mesmo ao ser humano, desde o Seu nascimento, marcando-o como criatura e filho, como alguém que de tudo d’Ele dependente e é, ao mesmo tempo, livre.

Na quarta etapa da preparação para o Natal do Senhor, o tema da Palavra de Deus é o anúncio do nascimento de Jesus, pela profecia de Natan e de Davi e que se faz presente no diálogo entre o Anjo e a Virgem Maria, representando assim, o início da revelação do mistério até então oculto e, enfim, revelado a todos os povos.

Experimentemos, neste tempo e na meditação que nos prepara para o Natal, aproximar-nos de Maria, sentir aquilo que ela experimentou em sua vida, na qual - tendo ela já feito a sua escolha – Deus lhe propôs o Seu projeto. Não há dúvida de que o mais importante do Evangelho da anunciação é a notícia da Encarnação do Filho de Deus. Sem perder de vista esta luz, colhamos o reflexo que produziu em Maria, que se torna para nós um exemplo do que significa acolher a vinda de Cristo hoje.

A cena da Anunciação é a primeira na qual encontramos Maria, no Evangelho segundo Lucas. Visto que os Evangelhos não são uma simples biografia de Jesus, mas uma reflexão da fé, o que eles dizem nas primeiras páginas não é apenas o que vem primeiro, ou mais antigo, mas tem também um valor “programático”, porque já nestas páginas resplandece a luz do Mistério Pascal. Isto significa que podemos meditar a cena da Anunciação, não como um tema a mais da Bíblia, mas como algo que acontece na origem da Encanação e da vida de Maria.

Deus envia o seu mensageiro a uma mocinha de Nazaré. Lucas diz que foi na cidade de Nazaré. Quase a imaginamos como uma de nossas cidades. Na realidade, naquele tempo, devia ser um vilarejo com algumas centenas de habitantes, que viviam da agricultura e da criação de animais de pequeno porte. Não tinha nenhum valor político nem religioso. É este ambiente simples e ordinário, onde não acontecia nada de excepcional, que forma a vida de Maria, a sua mentalidade e o seu espírito. O ambiente dos ”pobres do Senhor”. Aqueles que, vivendo em condições modestas, depositam a sua confiança totalmente em Deus. Gente que O reconhece como a mais importante riqueza.  A situação ordinária de Nazaré formou o íntimo de Maria e, por isso, também o de Jesus. É possível aprender com eles a viver a fidelidade, a perseverança, a paciência, no próprio tempo e ambiente onde nos encontramos.

Antes de saber o nome da destinatária do Anúncio, sabemos que é uma moça prometida em casamento: Maria e José já tinham celebrado a primeira parte do matrimônio judaico, isto é, o compromisso oficial de dois jovens e de suas famílias, e esperavam concluí-lo com a convivência, mais ou menos um ano depois. É nesse período de “passagem” que o anjo visita Maria: dirige-se a uma pessoa que tem um projeto de vida, que se comprometeu numa aliança de amor, disposta a viver a responsabilidade e a alegria dessa escolha. Sabemos que isto criou alguns problemas a ela e a José, mas Deus assim escolheu. Talvez porque procure pessoas assim mesmo, apaixonadas pela vida, capazes de fazer projetos e comprometerem-se com eles, confiando n’Ele, em si mesmos e nos outros.

Tomando a palavra, o anjo se dirige à Maria com uma saudação incomum entre os judeus. Eles se saúdam com “Shalom”. O convite a alegrar-se confirma os motivos pelos quais o anúncio dos profetas à “filha de Sião” a convidam a alegrar-se pela presença e a ação do Senhor. Deus não chama Maria pelo seu nome, mas lhe dá um nome novo: transformada pela Graça, favorita, agraciada! Como Deus sempre faz na história da salvação, quando chama alguém para confiar-lhe uma missão. Muda-lhe o nome, porque lhe dá uma nova identidade. Maria é aquela que recebeu a Graça, a benevolência, a beleza e o amor do Senhor. Na origem da sua vocação de ser a Mãe do Salvador tem um dom superabundante de Deus. O projeto que Maria é chamada a realizar e o caminho que será chamada a percorrer, mesmo assumindo os riscos e consequências, será uma resposta a esse amor. O mesmo vale para nós: o batismo nos transforma, nos dá uma nova identidade, nos dá um nome novo, e a nossa vida é o caminho para responder ao amor com o qual fomos criados e “recriados” no batismo.

A primeira reação de Maria à palavra do anjo é de certo temor reflexivo. De um lado, toma consciência de estar na presença de algo que a supera; de outro, quer compreender melhor o que está acontecendo. Aqui podemos ver em Maria a coragem de deixar-se tocar pelas situações, pelas palavras e pela capacidade de questionar o que estava obscuro, bem como os próprios sentimentos. Ela nos ensina como escutar a Palavra, não apenas com os ouvidos, mas com o coração e a inteligência, com o desejo de compreender aquilo que quer nos dizer. Sem este tipo de escuta a Palavra não pode produzir fruto em nós. 

O anjo pode agora continuar o seu anúncio, revelando a missão de Maria chamada a ser a Mãe do Filho de Deus, que vem para cumprir as promessas feitas por Deus ao seu povo. Depois do anúncio Maria entra em diálogo. Não refuta ou duvida do que é dito, mas principalmente porque se compromete com o conteúdo do anúncio, e pede explicações sobre o modo através do qual se realizará o projeto: como pode conceber se ainda não começou a vida matrimonial com José? Descobrimos em Maria uma fé realista: está disposta a dar crédito ao anjo, mas fica com os pés bem firmes no chão, e procura compreender como Deus agirá nela. Quando descobre que o Espírito Santo é a resposta que cobrirá todo o seu ser e abarcará toda a realidade da complexa proposta que acaba de escutar, ela apenas confia!

Depois que o anjo lhe revela o poder de Deus e lhe faz compreender que o filho nascerá por intervenção do Espírito Santo e não segundo a natureza humana, e lhe oferece como exemplo o que aconteceu com Isabel, sua parente, Maria responde com a frase mais famosa que o Evangelho poderia conter dela mesma: “Eis aqui a serva do Senhor, faça-se em mim segundo a tua Palavra”. Estas palavras contém o sentido de toda a vida de Maria.  Manifestam a sua disponibilidade ao plano de Deus, anunciado pelo anjo. A sua resposta manifesta ao mesmo tempo a sua adesão livre e consciente a Deus e o espaço aberto à ação de Deus. Maria responde ativa e passivamente ao mesmo tempo; isto é, faz tudo e deixa Deus fazer tudo.

Que neste tempo que nos envolve e nos prepara para o Natal, voltemos o nosso olhar à Maria que acolhe o anúncio de um Filho que é de Deus e será seu também. Que caminhemos em direção ao Natal que Deus prepara para cada um de nós, para as nossas famílias e as nossas comunidades, na alegria de que podemos confiar nos Seus projetos e com eles colaborar, dizendo também o nosso sim, quando ao nosso redor, a Igreja, o mundo à nossa volta nos pede uma atitude capaz de transformar a nossa realidade. Hoje descobrimos como Maria agiu.  A resposta sempre dependerá de cada um de nós.